A experiência moçambicana na modernização do Sistema de Informação Nacional de Água e Saneamento (SINAS) foi apresentada no 10.º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia como prova de que o recurso a software de código aberto, aliado à monitorização comunitária, pode garantir uma gestão hídrica transparente e eficaz.
O estudo foi apresentado esta quarta-feira (30), durante o encontro que está a decorrer desde ontem (29) até 2 de Agosto, em Maputo. A iniciativa é organizada pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), em Portugal, e pela Faculdade de Engenharia da Universidade Eduardo Mondlane (FEUEM), com o patrocínio institucional do Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial (INEGI) e da Sociedade Portuguesa de Materiais.
Tendo como tema central “O Papel da Engenharia na Cooperação entre as Comunidades Lusófonas”, o congresso reúne engenheiros, docentes e técnicos de múltiplas especialidades para partilha de experiências em domínios que vão do ensino da engenharia à inovação e ao empreendedorismo.
Criado em 2003, o SINAS passou por sucessivas actualizações até à configuração de referência de 2017-19, assente em ferramentas open source como o Open Data Kit (ODK), o PostgreSQL e soluções SIG baseadas em QGIS e Lizmap. Este leque tecnológico “garante transparência e auditabilidade dos dados”, sublinha a investigação.
Entre 2017 e 2019, o apoio da USAID, através do programa WALIS, consolidou a arquitectura do sistema; nos anos seguintes, acrescenta o estudo, colaborações com a UNICEF e a integração do DHIS2 reforçaram a análise de indicadores de desempenho. O Banco Mundial e a Embaixada dos Países Baixos, por via do Projecto de Saneamento Urbano (PRODIAS), introduziram depois um Módulo Urbano e um serviço de monitorização via SMS, elementos que “permitiram alargar o âmbito do SINAS às cidades”, refere ainda a pesquisa.

De acordo com os pesquisadores a recolha de dados, detalha o trabalho, abrange fontes de água, sistemas de saneamento e higiene comunitária, partilhando-se a informação com entidades urbanas como o Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG) e a Administração de Infra-estruturas de Abastecimento de Água e Saneamento (AIAS). O Módulo Urbano, “construído sobre a aplicação móvel m-SINAS”, acrescentou oito inquéritos sobre infra-estruturas de tratamento, elevatórias, captações e reservatórios, permitindo “descrições pormenorizadas e registos fotográficos que reforçam a responsabilização”, salienta o documento.
No campo da monitorização comunitária, a investigação dá conta de um servidor dedicado de SMS que “confere voz directa às populações”: líderes locais reportam avarias, recebem feedback automático e acompanham o estado das ocorrências via WebSIG. Esta dinâmica, observa o estudo, “reduz o tempo de resposta das autoridades e fomenta a manutenção preventiva.”
Quanto aos autores, a pesquisa é assinada por António Jorge Monteiro, engenheiro de projectos e sócio da Engidro Engineering Solutions, professor associado do Instituto Superior Técnico (Portugal), especializado em hidráulica e saneamento; Ricardo Germano, investigador ligado ao Centro de Estudos e Recursos em Inovação e Segurança (CERIS) na área da modelação de sistemas de abastecimento; Ana Silva, igualmente do CERIS, dedicada à inovação em engenharia civil; e Alcino Nhacume, hidrogeólogo e gestor de abastecimento de água na Direcção Nacional de Água e Saneamento. Os quatro, segundo o trabalho, “combinam experiência académica e prática para propor um modelo replicável noutros países lusófonos.”
Embora reconheça desafios na mobilização de recursos, a pesquisa conclui que “a combinação de software livre, participação cidadã e parcerias institucionais posicionam o SINAS como referência regional” na gestão de água e saneamento, oferecendo uma solução de baixo custo e elevado impacto social.
Texto: Felisberto Ruco



























































