Num contexto marcado por taxas de juro relativamente elevadas e restrições de liquidez, o Standard Bank Moçambique reafirma a sua aposta no desenvolvimento das MPME, através da criação de alternativas de financiamento e programas de capacitação adaptados à realidade nacional.
O acesso ao financiamento para Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME) continua a ser um dos temas fundamentais do desenvolvimento económico de Moçambique. Em 2024, o crédito à economia nacional registou um crescimento de 3,5%, atingindo um valor recorde de 286,4 mil milhões de meticais (cerca de 4,1 mil milhões de dólares), de acordo com dados do Banco de Moçambique, um aumento favorecido, em parte, por sucessivas reduções da taxa de juro de referência (prime rate) que, já neste ano, prosseguiu a sua trajectória descendente para 17,40% em Junho de 2025, criando um ambiente mais favorável ao crédito para empresas e particulares. E isto porque o financiamento constitui um dos principais motores de crescimento e sustentabilidade das MPME e a obtenção de crédito permite às empresas investir em tecnologia, capital humano e expansão das suas operações — factores determinantes para o aumento da produtividade, criação de emprego e reforço do tecido económico nacional. Mas apesar dos avanços, persistem desafios estruturais num contexto, como se sabe, desafiador, com exigências de garantias, taxas de juro ainda relativamente elevadas e procedimentos administrativos complexos para muitas das organizações, especialmente as de menor dimensão.
Mas nem tudo são barreiras ao potencial de crescimento das MPME,(98% do tecido empresarial nacional), que representam uma fatia significativa da criação de emprego e detêm um potencial transformador da estrutura produtiva. Existe, portanto, um problema antigo bem identificado, mas há soluções no mercado para permitir o acesso aos recursos necessários que podem servir de alavanca para este salto na actividade de milhares de empresas de todo o País. E é neste contexto que, em entrevista à E&M, Márcia Karim, directora da Banca Comercial e de Negócios do Standard Bank Moçambique, partilha as soluções do banco para facilitar o acesso ao crédito, apoiar a formalização dos pequenos negócios e contribuir para um crescimento económico mais inclusivo e sustentável.
Como caracteriza, actualmente, o acesso ao crédito bancário em Moçambique para as PME?
De um modo geral, em Moçambique, o acesso ao crédito para PME está associado ao nível de organização das mesmas, sobretudo para aquelas que operam informalmente ou sem contabilidade organizada. A elegibilidade continua dependente da apresentação de demonstrações financeiras fiáveis e garantias, mas o Standard Bank é flexível com clientes que apresentam uma boa conduta e que fazem parte de um ecossistema robusto.
“O Banco está a reintegrar o desconto de facturas, o que permite às empresas antecipar receitas e reforçar, assim, a sua liquidez sem recorrer ao crédito tradicional, respondendo eficientemente aos seus desafios de tesouraria”
Face às actuais taxas de juro e restrições de liquidez, o que está o Standard Bank a fazer para tornar o financiamento mais acessível?
O Standard Bank tem recorrido a instrumentos, como linhas de financiamento com cobertura de risco e estruturação de operações em moeda local, para amortecer o impacto das actuais taxas de juro e restrições de liquidez nos clientes. Temos bons exemplos disso, que incluem a utilização de facilidades de trade finance com prazos médios mais alargados e spreads mais competitivos, e a renegociação de prazos para clientes com boa performance de crédito. Além disso, há um esforço de segmentação para garantir que os sectores produtivos tenham acesso a soluções adaptadas às necessidades de tesouraria e investimento.
Que soluções ou produtos financeiros alternativos ao crédito convencional têm sido desenvolvidos pelo banco?
O Banco tem vindo a desenvolver soluções específicas para PME como, por exemplo, o crédito flexível, que permitia acesso a financiamento de curto prazo até 1,5 milhão de meticais, com análise simplificada para clientes com bom histórico. Esta solução foi implementada durante os últimos sete anos. Neste momento, o Banco está a reintegrar o desconto de facturas, permitindo às empresas antecipar valores a receber, reforçando, assim, a sua liquidez sem recorrer a crédito tradicional, e respondendo de forma mais eficiente a desafios de tesouraria no curto prazo. E desenvolvemos e subscrevemos linhas de financiamento específicas para o apoio às PME. Em 2021, o Standard Bank disponibilizou 18 milhões de meticais para apoiar PME impactadas pela covid-19 (através da iniciativa “Acelere o seu negócio”) e recentemente subscreveu a linha de recuperação económica no âmbito da recente instabilidade no País, como forma de garantir a robustez financeira das PME para mitigar os efeitos das perdas causadas. Temos também explorado soluções, não necessariamente financeiras, mas que ajudam a alavancar estes negócios introduzindo mercados alternativos para importação e exportação através de plataformas como a Africa China Trade Solutions.
Pode partilhar quais os programas que têm implementado para apoiar as PME?
No âmbito do seu compromisso com o desenvolvimento económico inclusivo, o Banco tem promovido diversas iniciativas voltadas para a inclusão de empresários informais e pequenos negócios.
Um dos principais instrumentos dessa actuação é a Incubadora de Negócios do Standard Bank, fundada em Agosto de 2017. A Incubadora de Negócios tem promovido vários programas para fortalecer as PME, entre eles, programas de Ideação, Incubação e Aceleração, com o apoio de parceiros estratégicos, focando-se na inovação e desenvolvimento de negócios.
Dentre estes, o programa Lionesses of Africa que promove o empreendedorismo feminino através de capacitação e networking.Igualmente, destacam-se as masterclasses para PME, com temas de capacitação financeira (para não financeiros).Ademais, temos promovido Briefings Económicos para dotar as empresas e os seus representantes de insights sobre o ambiente económico nacional e internacional. Como parte da nossa estratégia de apoio aos clientes através dos ecossistemas, criámos o espaço de networking para garantir oportunidades mútuas.
De que forma o Banco tem trabalhado com parceiros multilaterais ou instrumentos como o Compacto Lusófono, Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento ou os fundos da IFC para alavancar o financiamento privado?
O Banco tem estado a analisar parcerias viáveis que se ajustem à realidade do nosso mercado e respondam aos desafios de acesso ao financiamento a custos mais baixos. É o caso da linha African Guarantee Fund (AGF) que está em análise, não só a nível local mas também em alguns países do Grupo nos quais operamos com o mesmo propósito Em paralelo, estamos a explorar a possibilidade de recorrer à linha de financiamento disponibilizada pelo BdM, em parceria com a KfW, que visa apoiar o sector do agro-negócio, com o propósito de responder aos desafios actualmente enfrentados neste sector. O Banco considera, de resto, as agências de desenvolvimento e cooperação como impulsionadores da criação de oportunidades de financiamento privado e, mais concretamente, da possibilidade de partilha de riscos em estruturas específicas e direccionadas. As sinergias têm sido alvo de discussão para identificar projectos de impacto social e económico em áreas estratégicas de desenvolvimento. Temos acompanhado de perto os projectos das entidades mencionadas, agindo também como parceiro directo, conselheiros e partilhando experiências, de modo a elucidar ainda mais para os riscos de mercado, de negócio e até acerca de capacidade financeira, que são os maiores desafios das PME, tomando em consideração a participação em concursos e crescimento sustentável das mesmas. Temos também desenvolvido workshops direccionados para as PME, para ajudarmos a criar uma cultura de reporte exaustivo (educação financeira) que lhes permitirá aceder aos fundos dos parceiros multilaterais.

Que sectores estratégicos consideram prioritários?
O Banco tem como prioridade sectores com forte impacto multiplicador, nomeadamente a agricultura comercial, com destaque para agro-indústrias e cadeias de valor locais; a indústria de energia, particularmente energias renováveis descentralizadas; a logística e infra-estruturas, incluindo projectos que facilitem o escoamento de produção nacional, com impacto directo na criação de postos de trabalho e na geração de divisas para o País e respectiva balança de pagamentos.
Qual é a visão do Banco sobre o futuro do financiamento no País?
O Standard Bank demonstra um compromisso firme com o fortalecimento do ecossistema empresarial nacional, promovendo um modelo de financiamento mais sustentável, inclusivo e orientado para o desenvolvimento de longo prazo.
Através da sua visão estratégica, o Banco procura posicionar-se como um agente catalisador do crescimento económico, apoiando tanto grandes empresas como pequenas e médias iniciativas, incluindo startups preparadas em incubadoras próprias. A nossa instituição tem vindo a alinhar-se com os princípios ESG (Ambiental, Social e de Governança), priorizando o financiamento de projectos que promovam a inclusão financeira, o empreendedorismo, a infra-estrutura, a educação, a saúde e a mitigação das alterações climáticas.
“O Standard Bank Moçambique tem um compromisso firme com o fortalecimento do ecossistema empresarial nacional, promovendo um modelo de financiamento sustentável e inclusivo”
Para fomentar um ambiente económico mais dinâmico e inclusivo, o Standard Bank tem colaborado activamente na promoção de reformas estruturais que visam melhorar o acesso ao financiamento e fortalecer o tecido empresarial.
Entre as prioridades estão a melhoria do ambiente regulatório, assegurando maior previsibilidade e transparência para atrair investimento privado; o fortalecimento das instituições financeiras locais, com aposta na digitalização e na inclusão bancária em zonas rurais; e a criação de incentivos fiscais e linhas de crédito específicas para PME e startups inovadoras.
O Banco defende ainda o estímulo a parcerias público-privadas para acelerar a implementação de infra-estruturas críticas, e destaca o papel da educação financeira e da capacitação empresarial, com especial enfoque em jovens e mulheres empreendedoras-
Através destas medidas, o Standard Bank acredita ser possível construir um sistema financeiro mais resiliente, acessível e alinhado com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável de Moçambique.
Texto e Fotografia • M4D


























































