1. Introdução
Este é o meu 50.º artigo na Revista Economia & Mercado e no jornal Diário Económico. Vem este artigo a propósito da popularização do uso de Incubadoras de Negócios e Empresas em Moçambique, principalmente ao nível da Administração Pública¹, da banca, das instituições de microcrédito e das universidades. E reconhecendo este facto, sem surpresa, o Programa Quinquenal do Governo 2025-2029 de Moçambique acolhe a criação, até 2029, de mais sete incubadoras, focadas em projectos inovadores nas cadeias de valor.
Neste artigo, partilho a minha experiência neste tema e desafio os meus leitores/as a responderem à seguinte questão: o que são, e porque falham as Incubadoras de Negócios e Empresas (INE) em África?
2. O que é uma Incubadora de Negócios e Empresas?
Na minha opinião, uma Incubadora de Negócios e Empresas (INE) caracteriza-se pela presença combinada dos seguintes elementos:
1- São mecanismos de estímulo e de protecção à recuperação e desenvolvimento económico: historicamente as INE nasceram para solucionar problemas em regiões económica e socialmente deprimidas.
2- [Mecanismos] que estão orientados a apoiar empreendedores/as a criar o seu negócio e empresa. Em função dos objectivos específicos pretendidos, as INE podem assumir modalidades distintas, sendo as mais comuns: i) híbridas (virtuais/físicas); ii) temáticas ou transversais; iii) de base tecnológica; iv) de impacto social, etc.
3- Uma categoria de [Empreendedores] merece particular destaque em África: os públicos vulneráveis (v.g. mulheres² ³; jovens; pessoas com deficiência; deslocados de guerra).
O que são, e porque falham as Incubadoras de Negócios e Empresas (INE) em África?
4- [Negócios e empresas] esses que estão em estágios iniciais⁴ do ciclo de vida: v.g. de i) Concepção; ii) Startup; iii) e Escala.
5- [Empreendedores/as] esses que procuram soluções de alojamento dos seus negócios e empresas que i) não exijam alto investimento inicial em capital fixo; ii) que tenham um baixo custo de operação; iii) e que permitam a rápida instalação e início da operação.
6- [Soluções de alojamento] cujos pré-requisitos passam por uma combinação entre i) Infra-estruturas e ii) Serviços de Apoio.
7- Ao nível das [Infra-estruturas], as INE encontram-se dotadas de um espaço físico, normalmente em instalações devolutas, sendo estas, também, uma forma de recuperação imobiliária e arquitectónica de zonas urbanas e periurbanas deprimidas. Preferencialmente, as INE estão localizadas em “campus” universitários⁵ ou em parques industriais, ou em centros tecnológicos.
8- [Espaço físico] esse que se encontra convenientemente infra-estruturado: dotado de energia, telecomunicações, Internet, salas partilhadas de trabalho, salas de reunião, todas convenientemente equipadas com mobiliário de escritório e com equipamentos informáticos, laboratórios, anfiteatro, espaços verdes envolventes, parques de estacionamento, entre outras amenidades.
9- [Infra-estruturas] essas que se encontram dimensionadas para equipas muito reduzidas ⁶ ⁷.
10- Ao nível dos [Serviços de Apoio] mais procurados pelos empreendedores/as nas destacam-se: i) Acesso a formação, mentoria, consultoria e coaching; ii) Acesso a financiamento; iii) Acesso a mercados; iv) Acesso a tecnologia; v) e Acesso a networking e parcerias de alto valor, internas (i.e. com as restantes empresas incubadas), e externas (i.e. acesso ao ecossistema empreendedor da região).
3. Porque Falham as Incubadoras de Negócios e Empresas?
Contudo, apesar do aumento da procura dos serviços de incubação, as INE nem sempre conseguem oferecê-los (i.e. existem falhas no mercado da incubação).
Neste contexto, as falhas mais relevantes apontadas pelos empreendedores/as africanos nas INE são:
- Falta de instrumentos de financiamento para escalar o negócio (70%).
- Dificuldades em identificar e aceder aos mercados (50%).
- Falta de acesso a mentores qualificados (25%).
4. O papel dos Governos no apoio às INE
Tais [Falhas de Mercado] tendem a ser suprimidas pela intervenção directa dos governos fricanos que lançam mão dos seguintes tipos de apoio às INE:
- Formação em empreendedorismo: Formação em empreendedorismo para desenvolver as competências de que os empreendedores/as necessitam para criar e gerir empresas de sucesso.
- Programas de mentoria: Criação de programas de mentoria que conectam jovens empreendedores/as com líderes empresariais e mentores experientes.
- Serviços de consultoria empresarial: Prestação de serviços de consultoria empresarial, incluindo planeamento financeiro, estudos de mercado e desenvolvimento de estratégias empresariais.
- Acesso aos mercados: Programas de agilização do acesso aos mercados locais e internacionais. Tal inclui a facilitação de missões comerciais e o apoio a campanhas de marketing internacionais.
- Apoio à ligação em rede: de ligação em rede entre empresários, investidores e outras partes interessadas.
- Financiamento de arranque: Apoio às INE, concedendo financiamento de arranque, podendo assumir a forma de subvenções, empréstimos ou subsídios, ou oferecendo garantias de empréstimo.
5. A mãe de todas as limitações: a auto-sustentabilidade
A auto-sustentabilidade financeira surge como a principal limitação das INE Africanas. Neste contexto, e com o propósito de ultrapassar tal limitação, as INE têm lançado mão das seguintes fontes de receita:
- Formação: Oferecer cursos especializados para empreendedores/as e empresas que não necessitam de
- apoio da INE.
- Consultoria empresarial: Oferecer serviços de consultoria a empreendedores/as ou empresas que não são incubados na INE.
- Arrendamento de espaço: arrendamento de espaços (v.g. equipamentos audiovisuais, anfiteatros, laboratórios) para empresas e empreendedores/as que não necessitam de apoio da INE.
- Realização de eventos: Organização de eventos temáticos como forma de gerar receitas adicionais e aumentar a visibilidade da INE.
- Comercialização de produtos: A INE pode desenvolver produtos em parceria com empreendedores/as e comercializá-los (v.g. a Loja do Empreendedor/a, em Pemba).
- Subsídios: Procurar subsídios e fundos para o desenvolvimento de projectos e programas.

6. Conclusão
Ao longo deste artigo, explorei a relevância das Incubadoras de Negócios e Empresas (INE) em África, destacando o seu papel enquanto mecanismos de transformação e estímulo ao desenvolvimento económico e social, particularmente em regiões deprimidas.
Uma INE caracteriza-se pela sua capacidade de acolher empreendedores em estágios iniciais do ciclo de vida dos negócios — da concepção à fase de escala.
Estes espaços oferecem não apenas infraestruturas preparadas para acolher negócios com baixos custos de operação, mas também serviços de apoio essenciais como formação, mentoria, acesso a mercados, e networking estratégico.
As principais razões para o falhanço das INE em África decorrem da incapacidade de responder adequadamente às necessidades dos empreendedores.
A questão da auto-sustentabilidade financeira é, indiscutivelmente, a “mãe de todas as limitações” enfrentadas pelas INE. A dependência de financiamento externo, sem a criação de fontes de receita sustentáveis, compromete a longevidade destas estruturas. Nesse sentido, é necessário um modelo de negócios que diversifique as fontes de receita.
Os governos africanos têm um papel determinante na superação destas barreiras, oferecendo apoio estruturado às INE através de programas de financiamento, formação e consultoria empresarial, além de facilitar o acesso a mercados nacionais e internacionais. Esta intervenção governamental, quando alinhada a parcerias público-privadas, pode catalisar o desenvolvimento de ecossistemas empreendedores robustos e sustentáveis.
As INE em África são mais do que espaços físicos; são plataformas de transformação social e económica, capazes de impulsionar a criação de empregos e fortalecer a resiliência de comunidades vulneráveis. Acreditar nas incubadoras é acreditar no potencial de África para inovar, criar e prosperar.
¹ INEP; INCM; INEGI.
² Mais de 60% das startups incubadas em África são lideradas por mulheres (AfDB).
³ Em 2020, o número de mulheres empreendedoras em África cresceu 21%, impulsionado por iniciativas de incubadoras de negócios voltadas para a igualdade de género (WEF, 2021).
⁴ Em 2019, a maioria dos investimentos em startups africanas foi realizada em estágios iniciais (54%) ou de crescimento (33%) (Partech Ventures).
⁵ Cerca de 70% das incubadoras de negócios em África têm parcerias com universidades, contra 80% no Brasil (VC4A).
⁶ Um estudo de 2020 sobre as incubadoras de negócio em Moçambique, realizado pelo Instituto de Estudos Sociais e Económicos, mostrou que as empresas incubadas criaram em média 5 empregos cada.
⁷ Um relatório de 2018 do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) mostrou que as empresas que receberam apoio das suas incubadoras criaram em média 3 empregos cada, contra 2,2 empregos cada no Brasil.


























































