O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) alertou que a região Norte de Moçambique registou, em Junho, uma crise humanitária “cada vez mais profunda”, causada pela escassez de financiamento, desastres naturais e aumento da violência armada nas províncias de Cabo Delgado e Niassa.
“A escalada da violência por parte dos grupos armados não estatais continuou a provocar novas deslocações, a perturbar os serviços essenciais, a restringir severamente os movimentos, a exacerbar a insegurança alimentar e a impedir a prestação de assistência vital”, avançou a entidade através de um relatório divulgado nesta segunda-feira, 7 de Julho, pela Lusa.
No documento, a instituição das Nações Unidas descreveu que, no dia 24 de Junho, 568 pessoas, incluindo 324 crianças, fugiram dos ataques de grupos armados na aldeia de Quinto Congresso, no distrito de Macomia, elevando o número total de deslocados pelo conflito para 48 mil desde o dia 1 de Janeiro.
Segundo o OCHA, muitos dos afectados necessitam urgentemente de alimentos, abrigo, bens de primeira necessidade e água potável. “O conflito continua a ter impacto nas necessidades de protecção das pessoas. No início de 2025, Cabo Delgado viu um aumento de 22% nos casos de violência baseada no género em comparação com 2024.”
A publicação relatou que o Governo facilitou o regresso das populações às suas zonas de origem nos distritos de Macomia, Metuge e Montepuez, em Cabo Delgado, e, recentemente, em Mecula, no Niassa, em grande parte devido à inadequada assistência humanitária e à sobrelotação dos locais de acolhimento aos deslocados.
“A população que regressa não encontra nada nas suas áreas de origem, uma vez que as suas casas, parcelas agrícolas e meios de subsistência foram destruídos, e os serviços básicos não foram restaurados”, argumenta.

A agência da ONU aponta ainda para a persistência das necessidades e lacunas pós-ciclone, aliadas às restrições de financiamento. “As pessoas afectadas pelos três ciclones, que, além da destruição de milhares de casas e infra-estruturas, provocaram cerca de 175 mortos, não receberam assistência adequada”.
“As primeiras avaliações realizadas desde Março nos distritos de Lalaua e Muecate em Nampula, no Norte do País, revelaram que um total de 70 mil pessoas foram afectadas pelos ciclones, mas não receberam assistência”, sustenta.
Outro problema apontado pelo OCHA refere-se ao declínio em cerca de 26% no financiamento humanitário entre 2024-2025, caindo de 74 milhões de dólares, para 55 milhões de dólares. “Como resultado, cerca de 260 mil pessoas ficaram sem acesso a serviços de higiene, enquanto 200 mil pessoas continuam sem abrigo adequado. Além disso, o programa de recolha de amostras laboratoriais, que servia 25 mil pessoas por mês, principalmente pessoas com VIH e tuberculose, foi abruptamente interrompido”, conclui.
Desde Outubro de 2017, Cabo Delgado – província rica em recursos naturais, nomeadamente gás – tem sido palco de uma insurgência armada que já provocou milhares de mortos e originou uma crise humanitária com mais de um milhão de deslocados internos.
Em Abril, os ataques alastraram também à vizinha província do Niassa. Um dos episódios mais graves ocorreram na Reserva do Niassa e no Centro Ambiental de Mariri, no distrito de Mecula, onde grupos armados não estatais atacaram instalações, roubaram bens, destruíram acampamentos e uma aeronave do parque. Estes actos resultaram na morte de, pelo menos, duas pessoas, e levaram à deslocação de mais de dois mil indivíduos, dos quais 55% são crianças.


























































