Elsbeth Akkerman, embaixadora do Reino dos Países Baixos em Moçambique, revê cinco décadas de cooperação entre os dois países e fala de desafios antigos, estratégias desenvolvidas e uma renovada aposta num futuro mais sustentável com o envolvimento de parceiros internacionais, Estado e sector privado.
Ao longo dos últimos 50 anos, que são também os primeiros da história de um ‘novo’ País, os Países Baixos têm sido um dos parceiros internacionais mais consistentes de Moçambique. A relação bilateral, formalmente estabelecida logo em 1975, evoluiu de uma abordagem centrada na ajuda ao desenvolvimento para aquela que é hoje: uma cooperação mais orientada para o crescimento económico sustentável e a inclusão social.
Em entrevista à E&M, a embaixadora Elsbeth Akkerman reflecte sobre os principais eixos desta cooperação — agricultura, água, saúde e direitos humanos —, destacando o novo papel do sector privado no tradicional processo da cooperação entre Estados, e destaca a importância do capital humano moçambicano. A diplomata partilha também lições recolhidas de contextos como o Vietname e reitera “a confiança num futuro inclusivo e sustentável para Moçambique.”
Ao longo destes 50 anos, qual tem sido a essência da cooperação entre os Países Baixos e Moçambique?
Temos vindo a cooperar em muitas áreas diferentes, mas creio que, no cerne da nossa cooperação, residem verdadeiramente a solidariedade, a compaixão e o desejo de que ambos os países e ambos os povos prosperem. As pessoas estão no centro de tudo aquilo que temos feito, do que fazemos actualmente e daquilo que continuaremos a fazer no futuro. No centro de tudo estão as pessoas — no Governo, no sector privado, na sociedade civil, nas universidades. Mas, em última instância, são os Moçambicanos a razão central pela qual, em 1975, começámos a trabalhar em conjunto.
É uma cooperação que se tem distinguido, essencialmente, pela dimensão humana?
Sem dúvida. Foi verdadeiramente um esforço conjunto. O que caracteriza a nossa relação bilateral é o facto de ter sido uma parceria, não apenas entre governos, mas também entre indivíduos que vieram para Moçambique contribuir para a construção de um novo país. Uma nova sociedade edificada sobre a riqueza natural, a beleza e, sobretudo, o povo moçambicano.
“Com uma economia aberta e oportunidades inclusivas, Moçambique pode desbloquear todo o seu potencial que sabemos que está cá. Mas é fundamental que os recursos naturais sejam geridos com responsabilidade”
Quais os sectores prioritários da cooperação com Moçambique?
Existe um fio condutor: cooperámos, e continuamos a cooperar, em áreas que representam desafios para Moçambique, mas que também são oportunidades —agricultura, água, saúde e direitos. São sectores nos quais os Países Baixos têm uma experiência relevante e que estão alinhados com os nossos princípios: direitos humanos, liberdades fundamentais, boa governação, responsabilidade e transparência. É isso que procuramos representar.
Pode especificar essas áreas?
Trabalhamos, por exemplo, na agricultura, segurança alimentar e nutrição, sectores nos quais temos experiência internacional. Desde a ciência agrícola aos sistemas alimentares, conseguimos “casar” o nosso conhecimento com as necessidades locais. Na agricultura, temos mais de 15 anos de cooperação. Se, no início, o enfoque era mais voltado para o desenvolvimento, hoje, a nossa acção está cada vez mais orientada para o envolvimento do sector privado.
Isso representa uma mudança na abordagem?
Sim. No passado, a ajuda era mais centrada na ajuda ao desenvolvimento. Actualmente, e no futuro, queremos envolver mais o sector privado — PME, empreendedores, jovens. E, a esse nível, programas como o Orange Corners reflectem isso. Esta mudança está alinhada com a visão do Governo moçambicano que aposta numa transformação agrícola liderada pelo sector privado. Trata-se de passar de uma lógica de subsistência para uma lógica de mercado, cadeias de valor, indústria e exportação, com empresas moçambicanas e holandesas envolvidas.
O que é necessário para tornar o sector agrícola atractivo para os jovens moçambicanos?
A agricultura precisa de se tornar numa oportunidade económica. Isto passa por integrá-la em áreas como a da banca, do comércio e do marketing. A agricultura está no centro da economia de ambos os países, mas, para que os jovens se envolvam, é fundamental que a actividade seja profissionalizada e modernizada. Tal deve incluir formação técnica, acesso a financiamento e ferramentas, que tornem a carreira agrícola viável.
Pode dar um exemplo concreto que espelhe essa visão?
Sim, o programa Mangwana, que significa “amanhã” em shona, uma língua local. É um programa plurianual implementado no Corredor da Beira, província de Sofala, financiado pelos Países Baixos e gerido por um consórcio. Decorre em parceria com a Agência de Desenvolvimento Regional do Zambeze e o Ministério dos Negócios Estrangeiros. O programa junta o Governo, sector privado, academia e sociedade civil. É um bom exemplo da nova abordagem de apoio à transformação agrícola liderada pelo sector privado.
A gestão da água é também uma área importante da cooperação bilateral, em que medida?
Sem dúvida. Moçambique é atravessado por nove rios que desaguam no oceano Índico, o que cria oportunidades, mas também desafios, semelhantes aos dos Países Baixos. Cooperamos em zonas fronteiriças com a África do Sul e Essuatíni, e vamos começar um trabalho semelhante com o Zimbabué. Na Beira, apoiámos o sistema de drenagem urbana e agora trabalhamos numa estratégia de protecção costeira baseada na Natureza, com dunas e participação comunitária.
“No passado, a ajuda era mais centrada na ajuda ao desenvolvimento. Actualmente, e no futuro, queremos envolver mais o sector privado — PME, empreendedores, jovens, e programas como o Orange Corners reflectem isso mesmo”
E, nesse âmbito, as alterações climáticas continuam a ser um eixo transversal à vossa estratégia?
Absolutamente. A luta contra o aquecimento global está presente em tudo o que fazemos. Na agricultura, por exemplo, integrámos práticas inteligentes do ponto de vista climático: sementes resilientes, técnicas de irrigação e conservação de solo. A sustentabilidade está sempre presente.
Como olham para as áreas da saúde e dos direitos humanos?
Continuamos a apostar fortemente na saúde e nos direitos sexuais e reprodutivos. Uma população saudável é fundamental para uma economia funcional. Focamo-nos na juventude, nas mulheres e raparigas, bem como em populações-chave, como a comunidade LGBTIQ+ e trabalhadoras do sexo. É uma questão de dignidade, mas também de desenvolvimento económico.
Sendo um dos parceiros históricos de cooperação, para onde vê o evoluir esta relação com Moçambique?
As prioridades mudam. Há décadas, as alterações climáticas não estavam no centro do debate; hoje são incontornáveis. Usamos planos plurianuais de cinco anos que apontam numa direcção. No início, o foco era mais assistencial. Hoje, queremos criar oportunidades económicas e fortalecer capacidades mútuas.
Trata-se então de uma mudança de paradigma, de ajuda para cooperação económica?
Exactamente. Procuramos desenvolvimento sustentável e isso exige envolvimento do sector privado. O comércio e o investimento são motores fundamentais do crescimento económico. A orientação do Governo moçambicano para um modelo liderado pelo sector privado está em sintonia com esta visão.
Como referiu, a vossa estratégia está permanentemente alinhada com a do Governo moçambicano. De que forma?
Nem sempre de forma total, mas tudo é feito em coordenação com o Governo. Actualmente, com novos governos em ambos os países, há uma feliz coincidência de prioridades. Em Outubro, lançaremos a nova estratégia plurianual, que será mais focada no comércio e no sector privado.Focamo-nos na empregabilidade e no empreendedorismo jovem. Mas é preciso mais do que formação, é necessário que os currículos estejam alinhados com as exigências do mercado. O sector privado tem de estar muito envolvido nesse processo.
O contexto nacional tem imensos desafios. Como os encaram?
A experiência em Moçambique ensina-nos muito sobre resiliência e adaptação às alterações climáticas. Aprendemos com os Moçambicanos. Fortalecemos redes e alargamos o nosso próprio conhecimento. É uma parceria que funciona em ambos os sentidos.
Foi diplomata no Vietname antes de chegar a Moçambique. Encontra similitudes entre ambos os países?
O Vietname teve um ponto de viragem em 1975, tal como Moçambique. Após conflitos internos, nos anos de 1980, abriu-se ao investimento estrangeiro, com uma estratégia clara: canalizar esses recursos para a educação, saúde e infra-estruturas, criando assim condições para mais investimento. Moçambique pode trilhar esse caminho, mas é necessário uma visão de longo prazo, como a do Vietname, que projecta o impacto das alterações climáticas a cem anos.

Moçambique tem o capital humano necessário para avançar?
Sim. O País tem recursos naturais, uma localização estratégica e, acima de tudo, o seu povo. O capital humano é o maior activo. Vejo isso no programa “Embaixadora Por Um Dia” que apoiamos em conjunto com o Canadá, Finlândia, Suécia, Reino Unido e Espanha, e onde jovens mulheres aperfeiçoam os seus skills de liderança.
Por outro lado, vemos sinais positivos de compromisso político e a promessa de reformas estruturais. São estes os alicerces para um Moçambique mais estável, inclusivo e sustentável.
Como antevê, vendo de fora mas tendo já um conhecimento profundo da realidade, o futuro do País?
Vejo sempre o copo meio cheio. Com uma economia aberta e oportunidades inclusivas, Moçambique pode desbloquear todo o seu potencial que sabemos que está cá. Mas é fundamental que os recursos naturais sejam geridos com responsabilidade, com foco nas pessoas e no meio ambiente. E que haja planeamento a longo prazo.
Qual é a percepção das empresas holandesas sobre Moçambique?
Temos aqui algumas empresas de referência, como a Heineken, a Cornelder e outras com bastante relevância. Mas Moçambique continua a ser um dos segredos mais bem guardados de África, e foi por isso que organizámos, ainda recentemente (em Março), uma missão empresarial na área agrícola. Estamos a tentar posicionar o País como um destino de oportunidades de negócio, com vista ao lucro, sim, mas também com negócios que fomentem impacto social e ambiental.

Texto: Pedro Cativelos • Fotografia: Mariano Silva & D.R.


























































