No mesmo estádio onde Samora Moisés Machel proclamou a independência total do País no dia 25 de Junho de 1975, o actual Presidente da República, Daniel Chapo, assinalou, esta quarta-feira (25), meio século de soberania com um discurso carregado de simbolismo, memórias e renovados compromissos.
Diante de 40 mil cidadãos e chefes de Estado africanos convidados, Daniel Chapo propôs uma leitura histórica da caminhada do País desde a libertação do jugo colonial português até aos desafios do presente, e apelou à “construção de uma nova etapa de independência: a independência económica e social”.
“Hoje celebramos não apenas um acontecimento histórico, mas o legado vivo da nossa luta, a nossa dignidade recuperada, a esperança renovada”, disse o chefe do Estado, ao lembrar que ele próprio nasceu dois anos após a proclamação da independência: “Sou produto directo da nossa liberdade.”
Estádio ganha novo nome como marco do patriotismo
Num momento marcante da cerimónia, o Presidente anunciou a decisão do Conselho de Ministros de atribuir ao Estádio da Machava o nome de Estádio da Independência Nacional. O gesto, explicou, visa consagrar o local como “verso vivo da nossa independência” e “símbolo permanente do patriotismo”.
A cerimónia, no agora rebaptizado “Estádio da Independência Nacional,” substitui o “Estádio Nacional da Machava” e teve como ponto de partida simbólico o percurso da “Chama da Unidade”, iniciada a 7 de Abril de 2025 em Nangade, Cabo Delgado — o mesmo ponto onde foi lançada a primeira tocha em 1975.
Ao longo de 79 dias, a chama percorreu os 161 distritos do País, num trajecto de mais de 15 mil quilómetros, envolvendo milhões de cidadãos em manifestações populares de identidade e pertença. Segundo Chapo, esta travessia foi mais do que um acto cerimonial: “Foi uma viagem simbólica ao coração do País, ao espírito indomável do povo moçambicano.”

Apesar da instabilidade que ainda persiste em algumas zonas do Norte, o Presidente da República fez questão de sublinhar que “a chama chegou a todos os distritos, incluindo os mais afectados pela violência armada”, agradecendo aos que garantiram a segurança e logística do processo. Para Daniel Chapo, a Chama da Unidade representa a reafirmação de que a “unidade nacional não é um dado adquirido, mas sim um esforço constante, que deve ser renovado por todas as gerações”.
Tributo aos heróis da libertação e à unidade nacional
O tributo aos fundadores da nação foi amplo e directo. Daniel Chapo prestou homenagem aos veteranos da luta armada, “conhecidos e anónimos”, que enfrentaram a repressão, prisão, exílio e a morte pela libertação da pátria. O chefe do Estado destacou o papel visionário de Eduardo Chivambo Mondlane, que unificou os moçambicanos em torno da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), apresentando a diversidade étnica, religiosa e cultural como uma riqueza, e não como uma ameaça. Exaltou também a figura de Samora Machel, primeiro Presidente do País, que definiu os alicerces do Estado com “verticalidade, justiça, disciplina e amor ao povo”.
Solidariedade internacional e reconciliação histórica
Ao mesmo tempo, o Presidente destacou a solidariedade internacional, com uma menção especial à Tanzânia, que acolheu e apoiou os nacionalistas moçambicanos desde os primórdios da luta. A presença da Presidente Samia Suluhu Hassan foi saudada como símbolo de continuidade da irmandade entre os dois povos. “A nossa luta não teria sido possível sem o vosso apoio”, afirmou Chapo, dirigindo-se à delegação tanzaniana.
O Presidente anunciou a decisão do Conselho de Ministros de atribuir ao Estádio da Machava o nome de Estádio da Independência Nacional
No plano diplomático, a cerimónia foi também uma mostra de reconciliação e cooperação histórica. A presença do Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, foi recebida com particular afecto. Chapo saudou o seu homólogo como “irmão de Moçambique”, alguém que “viveu intensamente a nossa história comum” e que representa os laços de amizade, cultura e memória entre os dois países. Foi ainda feita a defesa explícita de uma maior mobilidade entre os cidadãos portugueses e moçambicanos, numa reafirmação da pertença mútua que, para Chapo, transcende os traumas coloniais.
Desafios actuais e futuro da independência
No discurso, o Presidente não fugiu aos desafios do presente. Reconheceu que a independência política conquistada em 1975 ainda não se traduziu plenamente numa independência económica para todos.
Daniel Chapo alertou para os perigos do extremismo, da intolerância e das desigualdades sociais. Reafirmou que a luta pela justiça social, pela igualdade, pelo combate à pobreza e à corrupção deve continuar com a mesma determinação dos primeiros dias da libertação. “Nós não estamos aqui apenas para recordar. Estamos aqui para renovar. Renovar o compromisso com a pátria, com o progresso e com a dignidade do nosso povo”, disse.
Texto: Nário Sixpene



























































