Num mundo globalizado, a diáspora moçambicana tem sido um pilar na construção de pontes entre diferentes culturas, através das suas actividades profissionais. Muitos moçambicanos que vivem no estrangeiro exploram novas oportunidades de negócio e criam soluções inovadoras, que beneficiam tanto os que partiram, como os que ficaram no País. Um dos exemplos de sucesso é apresentado por Sirilo Lourenço, um jovem empreendedor que saiu de Moçambique, em 2019, para o Brasil e acabou por fundar a Brazil Mz Store, uma empresa que facilita a importação e exportação de bens entre os dois países.
Exemplo da mãe
O percurso de Sirilo começou na cidade de Maputo, no sul do País, onde nasceu e cresceu, no seio de uma família numerosa. Desde muito cedo, foi influenciado pelo exemplo da sua mãe, que trabalhava por conta própria: “Sou o filho mais novo de uma família de cinco irmãos. A minha mãe sempre trabalhou de forma autónoma. Crescemos e aprendemos com isso: ensinou-me muito sobre resiliência e criatividade”, recorda à E&M.
Com um forte interesse em aprender mais, Sirilo entrou na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em 2018, na licenciatura de Ensino de Inglês da Faculdade de Letras e Ciências Sociais. No entanto, sempre teve o desejo de expandir os seus horizontes académicos e explorar novas realidades: “Eu tinha o sonho de estudar no estrangeiro, primeiro num país de língua inglesa, para crescer pessoal e profissionalmente.”
A oportunidade surgiu quando conquistou uma vaga para estudar Administração Pública numa universidade brasileira. Mas a mudança não foi fácil. Teve de passar por um longo processo de selecção, documentação e enfrentar muita burocracia. “Não havia bolsa de estudos, foi uma vaga a que me candidatei e consegui”, relembra.
Adaptação ao Brasil
O primeiro choque, ao chegar ao Brasil, foi a adaptação à cultura local. Apesar de haver o português como idioma comum, as diferenças linguísticas e culturais eram marcantes. “O português brasileiro tem expressões e significados muito diferentes do português falado em Moçambique. Por isso, temos sempre de ter cuidado para não ofender, para não dizer algo sem querer”, exemplifica Sirilo.
A primeira encomenda, do Brasil para Moçambique foi um presente de Sirilo para a família: “Pensei na possibilidade de fazer envios, não só para a minha família, mas também para as pessoas que o pediam”
Apesar dessas dificuldades, o empreendedor apoiou-se nas semelhanças entre os dois países, para tornar o processo de adaptação mais fácil: “O Brasil tem muitas características que são típicas de África, de Moçambique em particular. O clima não nos surpreende, principalmente para quem está nas zonas um pouco mais nordestinas. E a comida brasileira tem muita influência africana.”
A necessidade original
Depois de formado, o empresário fez mestrado em Educação numa universidade federal em São Paulo, uma das maiores cidades da América Latina, onde se instalou, perto da infra-estrutura aeroportuária e de centros logísticos. Ficou igualmente perto do centro comercial Brás, um dos maiores da região. Foi durante esse período que surgiu a sua empresa, Envio Moz-Bra, em 2022.
O negócio nasceu a partir de uma necessidade pessoal e da crescente procura entre amigos e familiares: “Muitas pessoas pediam-me para comprar produtos no Brasil e enviar para Moçambique, mas eu nem sabia como fazer isso de forma eficiente.”
A primeira encomenda, do Brasil para Moçambique, foi um presente de Sirilo para a família: “Pensei na possibilidade de fazer envios, não só para a minha família, mas também para as pessoas que o pediam.”
Sirilo começou a fazer contas ao tempo que investia nas compras e em toda a logística a seu cargo, até enviar a encomenda. “Pensei em gerar algum rendimento com isso. Depois surgiu a necessidade de trazer produtos de Moçambique para o Brasil, porque estou rodeado de comunidades moçambicanas. E comecei a trabalhar nesse processo de importação e exportação de mercadorias”, explica à E&M.

Sem burocracias
Inicialmente, o negócio tratava apenas de encomendas pontuais de amigos e conhecidos, mas a procura cresceu rapidamente. Alguns clientes referenciavam-no a outros e as encomendas cresceram num curto espaço de tempo. Isso levou-o a formalizar a empresa e a investir numa estrutura profissional.
No Brasil, não há burocracia ou barreiras para abrir uma empresa, diz Sirilo. “Pelo contrário, há políticas públicas” que apoiam empreendedores, nacionais ou estrangeiros. Quanto aos recursos financeiros, não foram uma barreira, porque construiu a actividade com base no que ia acumulando. “Não tive de ir ao banco, pedir um empréstimo. Era possível gerir com as condições que tinha.”
Mas com o crescimento surgiram novos desafios, como a necessidade de registar a empresa por conta dos montantes transaccionados, além de um processo de clarificar fiscalmente o que está a ser produzido e como. Actualmente, a Brazil Mz Store está registada e possui um código comercial e fiscal.
Expansão e futuro
“Quando alguém pensar em importar do Brasil, queremos ser a primeira opção”, refere, em relação aos planos para o futuro.
Apesar de viver no Brasil, Sirilo mantém uma ligação com seu país de origem, pois visita a sua terra natal pelo menos uma vez por ano. A sua história é um exemplo de como a diáspora moçambicana pode contribuir para o desenvolvimento através do reforço dos laços económicos e culturais. “O sucesso vem para aqueles que persistem. Por mais erros que cometamos, temos sempre de nos manter firmes, aprender com eles e tentar de novo”, concluiu.
Texto: Germano Ndlovo
































































