Para quem vive na era digital, 25 de Junho de 1975 pode parecer uma data longínqua — e para um povo em que 90% nasceu depois da Independência, de facto, é. Felizmente, muitos de nós ainda podemos contar com os 10% que viveram aquele momento e que, com emoção intacta, continuam a partilhar as histórias dos sonhos, das aspirações e do imenso potencial de um futuro que, finalmente, estava nas nossas mãos.
Mas a tarefa era hercúlea, quase sem quadros técnicos, sem experiência administrativa, sem uma economia estruturada. Saímos de quase 500 anos de ocupação sem uma identidade colectiva, sem qualquer tecido nacional que nos unisse e com uma taxa de alfabetização de apenas 7%.
Mal sabiam eles que esse destino recém-conquistado estava prestes a ser adiado — que mergulharíamos, cedo demais, noutra tragédia. Dezasseis anos de conflito interno infligido entre irmãos. Sim, tínhamos uma moeda própria, um hino e uma bandeira, podíamos contar a nossa história. Mas ainda nos faltava o mais essencial: a paz.
Tal como em quase todos os temas que temos abordado nesta coluna, procuramos contextualizar sem politizar. É simples — até cómodo — falar em termos macroeconómicos e considerar os 16 anos de guerra como “perdidos”. Mais difícil é lembrar as vidas humanas, os sonhos interrompidos e os lares destruídos.
A guerra civil, entre 1977 e 1992, não só retardou profundamente o crescimento económico, como fragmentou o tecido social, criou desconfiança entre regiões e comprometeu a maturação institucional. Encurtou drasticamente a janela de oportunidade para consolidar o Estado e preparar o País para um desenvolvimento sustentável.
A electricidade, sendo um factor essencial para a industrialização e o agro-processamento, precisa de estar no centro de uma política de democratização energética
Entretanto, o mundo mudava. A queda do Muro de Berlim, em 1989, punha fim à Guerra Fria e inaugurava uma nova ordem global, com exigências económicas e políticas para as quais não estávamos preparados. Seguiram-se crises financeiras globais, para as quais as nossas frágeis instituições eram terreno fértil
As fragilidades estruturais
Diferente de países menores ou mais homogéneos, Moçambique — vasto, diverso e jovem — enfrenta desafios únicos. A fragilidade das instituições, a incerteza na protecção da propriedade privada, a morosidade da justiça, a corrupção sistémica e a falta de responsabilização minam qualquer tentativa de crescimento estruturado.
A baixa produtividade agrícola continua a ser um dos principais entraves ao desenvolvimento rural e à segurança alimentar. Embora o País tenha registado crescimento na produção de cereais e raízes, de acordo com o último relatório do Desempenho Económico e Social de 2024 do Ministério da Planificação, os níveis de consumo per capita de alimentos básicos como leite e carne permanecem muito abaixo da média regional.
Com apenas 11 litros de leite por pessoa, por ano, muitas crianças moçambicanas crescem sem acesso a uma nutrição básica, o que afecta o seu desenvolvimento. A produção de milho e arroz, com 2,8 milhões de toneladas e 181 mil toneladas, apresentam uma produtividade por hectare de 1 tonelada e 0,6 toneladas, respectivamente — muito aquém do que se observa em países com agricultura mais estruturada, onde as produtividades médias rondam entre 6 a 10 toneladas por hectare para o arroz, e entre 8 a 12 para o milho. A continuar neste ritmo, mesmo com toda a terra do mundo, não conseguiremos alimentar a nossa população nem gerar excedentes para o desenvolvimento.
Adicionalmente, o acesso à energia eléctrica — condição básica para o progresso — é ainda limitado e caro quando comparado com países vizinhos. Embora a taxa de acesso tenha aumentado para 60,1% em 2024, os custos de ligação, a tarifa por kWh e a qualidade do fornecimento continuam entre os mais altos e menos fiáveis da região. Países como a Zâmbia e o Maláui, com menor capacidade instalada, conseguem garantir tarifas mais competitivas para uso doméstico e produtivo. A electricidade, sendo um factor essencial para a industrialização e o agro-processamento, precisa de estar no centro de uma política de democratização energética.
Desde as primeiras eleições multipartidárias, em 1994, o País registou um crescimento médio anual de 7% até 2015 — um feito notável, tendo em conta o ponto de partida. Mas o crescimento, por si só, não garante transformação. Ruanda, após o genocídio de 1994, apostou na reconciliação, na tecnologia e na reforma institucional, crescendo a 8% ao ano. A Etiópia focou-se em infra-estruturas e agro-indústria e ultrapassou os 10%. O Vietname, com guerra recente e recursos limitados, transformou-se numa potência industrial leve. O que os distingue de nós não é o passado — é o que fizeram com o futuro.
O que distingue estes países do nosso não é apenas a taxa de crescimento, mas a profundidade das reformas institucionais, a aposta clara no capital humano e a capacidade de gerar ganhos sustentáveis a partir do seu território. É este o desafio que temos pela frente: fazer mais com o que já temos e fazê-lo melhor.

O novo mundo que não espera
Atravessamos agora uma era de aceleração tecnológica sem precedentes. A automação, a inteligência artificial e novas formas de produção estão a redefinir o mundo do trabalho. Muitos dos empregos do futuro — ou mesmo do presente — simplesmente não existem ainda em Moçambique. E quando surgem, é frequente não termos mão-de-obra qualificada para os ocupar.
É urgente reconhecer este descompasso. Se continuarmos a formar jovens para um mundo que já não existe, estaremos não apenas a desperdiçar talentos, mas a condenar gerações inteiras à irrelevância económica. Isso é uma falha moral e estratégica. A cada revolução tecnológica que o mundo atravessa sem nós, o fosso entre o nosso potencial e a realidade aprofunda-se. Precisamos de uma transformação radical no sistema educativo, que vá além da mera instrução formal e promova competências críticas, criatividade, domínio digital e capacidade de adaptação. Precisamos de redesenhar o ensino técnico-profissional, valorizando o trabalho digno e útil à sociedade e criar pontes reais entre educação e indústria.
Mas o capital humano não se constrói apenas com escolas. Constrói-se também com dignidade. Com saúde básica assegurada, com nutrição, com habitação digna e com segurança. E constrói-se, acima de tudo, com exemplos — com líderes que inspirem, professores que eduquem com vocação, e pais que tenham esperança para transmitir aos seus filhos.

Moçambique que pode ser
O tempo de ensaiar acabou.
Com uma população projectada para 89 milhões até 2075, Moçambique tornar-se-á a 25.ª maior população do mundo. Seremos um dos países mais jovens e populosos de África — e teremos um milhão de novas crianças por ano para alimentar, vacinar e educar. Hoje, o PIB per capita ronda os 600 USD. Para atingir o patamar de rendimento médio, precisamos de crescer 7% ao ano nas próximas décadas — e garantir que esse crescimento se traduz em melhoria efectiva da qualidade de vida. A indústria transformadora continua a representar uma fatia ínfima do PIB. Exportamos matéria-prima e importamos valor acrescentado. Esta lógica precisa de ser invertida. O gás natural e os minerais estratégicos devem ser catalisadores de industrialização local — não apenas fontes de receita fiscal volátil. As nossas redes de comunicação, ferrovias, estradas e pontes, ainda viradas para os interesses de Lisboa da era colonial, têm de ser redesenhadas para Chicualacuala, Guruè, Machipanda, Zâmbia, RDC e além-mar. Precisamos de virar o foco para dentro e para os países vizinhos que tanto dependem da nossa costa para serem competitivos nos mercados mundiais. Precisamos de zonas económicas especiais que funcionem, de parcerias com investidores estratégicos que partilhem risco e valor e de infra-estruturas que sirvam a produção, não apenas a extracção.
Parafraseando um velho estadista, “o mundo não come minério ou gás; o mundo come comida”, e o agro-negócio deve assumir o papel central na criação de empregos. Com terras férteis, água e clima favorável, Moçambique pode tornar-se no celeiro da região. Mas isso exige acesso ao crédito, extensão rural, silos, armazenamento frio, logística e mercados. Pequenos produtores precisam de ser organizados em cooperativas modernas e conectados a cadeias regionais e globais.
No turismo, a costa e os parques nacionais continuam sub-explorados. Falta-nos uma política coordenada, formação de qualidade e promoção internacional eficaz. Países como a Tanzânia mostraram que é possível criar indústrias turísticas dinâmicas com impacto real no emprego e na balança de pagamentos.
Há exemplos que inspiram: o Vietname transformou-se num centro global de “manufactura leve”. A Etiópia tornou-se referência na produção têxtil para exportação. O Uruguai apostou na agro-indústria e no turismo ecológico, e a Indonésia transformou um sector extractivo de garimpo e exportação de matéria-prima bruta, num monopólio global de cobre. Moçambique pode — e deve — seguir a sua própria rota, mas não tem o luxo de ignorar o que funciona noutros contextos.
Precisamos também de rever os nossos modelos de cooperação e de diversificar os nossos parceiros estratégicos. Em artigos anteriores, já destacámos os exemplos de parcerias não convencionais como as implementadas pelo Vietname com Japão e Coreia do Sul, e pela Etiópia com a Turquia e a China. O momento é de fazer da cooperação internacional uma alavanca de transformação — não um prolongamento da dependência.

O desafio da liderança
Tudo isto começa com liderança. Com uma liderança que reconheça a gravidade dos desafios actuais — disfuncionalidade institucional, corrupção sistémica, juventude sem perspectivas — e que tenha a ousadia de romper com o ciclo de promessas não cumpridas, da mediocridade sistémica instalada e que priorize o bem comum. Com visão para planear a longo prazo, mas humildade e pragmatismo para servir no imediato.
Não há transformação sem rupturas, mas as rupturas precisam de ser guiadas por propósito e não por ressentimento. É preciso romper com as lógicas de captura do Estado, de clientelismo e de desresponsabilização.
As instituições existem para servir e o Estado só é legítimo se for justo. A política só se justifica se gerar esperança. E num mundo onde o eleitorado é cada vez mais exigente, a liderança tem de inspirar, unir e proteger.
Conclusão: progresso com coragem
O desafio para os próximos 50 anos é este: transformar potencial em progresso tangível. Fazer de Moçambique uma referência em África. E fazer isso com a força dos nossos próprios passos. Temos hoje um Presidente que viveu plenamente a moçambicanidade — que sentiu a guerra, sobreviveu ao cativeiro e conhece o peso da liberdade. Isso importa. A cada dia que passa, os 10% que viveram o 25 de Junho vão partindo. E como os israelitas que vaguearam por 40 anos, após 400 de cativeiro, nós também já caminhámos o suficiente. Está na hora de entrar — com coragem — na nossa Terra Prometida.
Não esperemos pelo dia 26 para começar.




















































