Medidas sonantes e reformulação de alianças catapultaram o líder do golpe de 2022, no Burquina Fasso, para a popularidade. Entre esperança e alertas, só o tempo mostrará os resultados.
Com 36 anos, o capitão Ibrahim Traoré, Presidente da Transição do Burquina Fasso, é o chefe de Estado mais jovem do mundo, desde que assumiu o cargo em Setembro de 2022, após um golpe de Estado que derrubou o tenente-coronel Paul-Henri Damiba – que, por sua vez, tinha afastado o Governo do Presidente Roch Kaboré, nove meses antes. A popularidade de que goza junto da população emergiu numa altura que o país deseja libertar-se da ameaça radical islâmica.
Na última década, o Burquina Fasso, rico em recursos minerais, caiu numa espiral de violência jihadista que já matou mais de 26 mil civis e militares, segundo a organização não-governamental Acled, que regista vítimas do conflito. Os ataques terroristas (levados a cabo por grupos ligados tanto à Al-Qaida como ao Estado Islâmico) ameaçam cerca de 40% do território nacional. A Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) estima que mais de 2 milhões de pessoas estejam deslocadas internamente, e que haja grandes necessidades de assistência humanitária.
Tolerância ao regime militar
Neste contexto, um inquérito do Afrobarometer concluiu que quase dois terços dos burquinenses acreditam que as forças armadas devam intervir quando os líderes abusam do seu poder e aceitam o regime militar. “O facto de a sondagem ter sido realizada numa altura em que o país já se encontrava sob um regime militar retrata uma aceitação geral, se não mesmo legitimidade, do regime”, refere Enoch Randy Aikins, investigador do Institute for Security Studies (ISS) e da iniciativa African Futures and Innovation (AFI), numa análise publicada, em Março, pela organização.
Quando tomou posse, Ibrahim Traoré apelou à “mobilização patriótica e popular” e prometeu pôr fim à insegurança do terrorismo, uma das razões com que justificou o golpe de Estado que o levou ao poder. “O nosso objectivo não é outro senão a reconquista do território do Burquina ocupado por terroristas e para devolver a esperança ao povo”, disse, avisando que “a própria existência da nação está em perigo.”
Rejeitar o FMI e o Banco Mundial
O capitão Ibrahim Traoré não é o primeiro líder carismático e emergir em África (mas com sucessos difíceis de medir), e só tempo dirá qual será o seu legado. A nível económico, rejeitou a assistência financeira do FMI e do Banco Mundial, um gesto que não foi apenas “uma decisão financeira”, mas também “a determinação de romper com as amarras das instituições de Bretton Woods, que foram muitas vezes criticadas por imporem medidas de austeridade que enfraqueceram muitas economias africanas”, assinalou Aikins. Para alguns, “é a demonstração de que o homem negro é capaz de cuidar dos seus próprios negócios, como disse Nkrumah”, antigo Presidente do Gana, entre 1960 e 1966, um dos fundadores do Pan-Africanismo. “Para a geração mais jovem, o regime de Traoré é uma oportunidade para mostrar à geração mais velha o que os jovens podem fazer, se tiverem oportunidade”, acrescentou.
Medidas económicas sonantes
O investigador do ISS realça que o jovem Traoré reverteu um aumento salarial para os funcionários do Governo, acordado pelo seu antecessor, nacionalizou duas minas de ouro e deixou de exportar ouro não refinado para a Europa – “em vez disso, inaugurou uma refinaria nacional de ouro que deverá processar 150 toneladas anualmente.” A criação do Centro Nacional de Apoio ao Processamento Artesanal de Algodão, a construção de um novo aeroporto (Ouagadougou-Donsin) e investimentos agrícolas consideráveis compõem o conjunto de medidas sonantes, na tentativa de industrializar o Burquina Fasso.
O Banco Mundial prevê que, se houver melhorias na segurança, condições meteorológicas favoráveis e um ambiente político estável, o crescimento do Burquina Fasso atinja 5% até 2027. “A produção mineira deverá aumentar, enquanto o crescimento nos sectores da agricultura e dos serviços deverá manter-se forte”, a par de um empenho do Governo “numa estratégia de consolidação orçamental, embora as necessidades de despesa continuem a ser elevadas”, lê-se na última análise do BM ao país.
As perspectivas económicas “estão sujeitas a riscos significativos, incluindo o agravamento da situação de segurança, choques climáticos, desafios de refinanciamento da dívida, vulnerabilidades no sector financeiro e fragmentação regional.”
Indicadores estão no “vermelho”
A população pede melhores condições de vida, e os índices globais continuam a mostrar um Burquina Fasso muito vulnerável. O país ficou em 185.º lugar entre os 193 que compõem o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo o relatório 2023-2024. Está também na cauda no cumprimento dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e o Índice de Pobreza Multidimensional indica que 64,5% da população é afectada por várias formas de privação e baixo rendimento (desnutrição, mortalidade infantil, educação, entre outros).
Texto: Redacção • Fotografia: D.R.

























































