O ambiente político em Moçambique voltou a adensar-se após o ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane ter lançado um severo aviso ao Governo, na sequência do ataque a um dos seus apoiantes. O político ameaçou convocar manifestações “cem vezes piores” do que as registadas após as eleições gerais, caso se mantenha aquilo que classifica como “perseguição política” contra os seus simpatizantes.
Mondlane falava no domingo (13), perante uma multidão reunida em Quelimane, província da Zambézia, um dia após o baleamento do músico Joel Amaral, figura próxima do movimento que o apoiou nas autárquicas de 2023 e nas presidenciais de 2024.
“Estamos à espera de mais um ferido ou um morto. Aquilo que viram até hoje vai ser cem vezes pior”, declarou Mondlane, acusando as autoridades de silenciar vozes dissidentes. O político responsabilizou directamente o Governo pela escalada da violência e advertiu o Presidente da República, Daniel Chapo, de que esta seria a “última oportunidade” para travar o ciclo de repressão.
Joel Amaral foi atingido na cabeça por desconhecidos no bairro Cualane 2.º, em Quelimane. Segundo fontes hospitalares, a lesão não resultou na penetração de projéctil, tendo sido realizada uma limpeza cirúrgica profunda. Amaral encontra-se internado nos cuidados intensivos e apresenta sinais de recuperação.
A polícia ainda não se pronunciou sobre os autores ou motivações do ataque, mas Mondlane considera o caso mais um episódio de intolerância política. “Já perdemos 47 coordenadores em circunstâncias similares, e até agora a justiça nada fez”, acusou.
Mondlane liderou, nos últimos meses, uma das mais expressivas contestações eleitorais desde 1994, após rejeitar os resultados das eleições de Outubro de 2024. Segundo organizações da sociedade civil, os protestos resultaram em cerca de 390 mortos e extensos danos materiais. O Governo reconheceu oficialmente 80 óbitos e milhares de infra-estruturas destruídas, incluindo escolas, unidades sanitárias e estabelecimentos comerciais.
Apesar de um acordo simbólico de cessar-fogo político assinado a 23 de Março entre Mondlane e Chapo, o líder da oposição considera que o pacto foi quebrado. “Apertei a mão de alguém que me garantiu o fim das mortes e perseguições. Mas, depois do que aconteceu com Joel, estão mesmo a cumprir?”, questionou, num tom de desafio.
O Presidente da República reagiu, entretanto, ao incidente, considerando o ataque uma “afronta à democracia” e apelando a uma investigação célere e rigorosa. “A violência não pode ter lugar num Estado de direito”, afirmou em comunicado oficial.
A tensão mantém-se elevada, com sectores da sociedade civil a apelarem ao diálogo e ao respeito pelos direitos fundamentais, num contexto em que o País ainda procura recuperar das feridas do último ciclo eleitoral.
Fonte: Lusa

























































