Itália está a reforçar o seu compromisso estratégico com África através do Plano Mattei, uma iniciativa abrangente estimada em 5,5 mil milhões de euros que visa aprofundar relações e criar oportunidades no continente africano, entre financiamentos, doações e garantias para empréstimos.
A iniciativa, baptizada em homenagem ao fundador da petrolífera italiana Eni (Enrico Mattei), procura posicionar Itália como um dos principais intervenientes no continente africano através de uma combinação de estratégias económicas, energéticas e geopolíticas. Um documento de orientação do Instituto Italiano de Estudos Políticos Internacionais (ISPI, em inglês), sublinha várias forças motoras por detrás da renovada atenção do país europeu a África, das quais se destacam:
- Gestão da migração: Há muito tempo que Itália é uma porta de entrada para os migrantes de origem africana na Europa. Com a maioria deles [dos migrantes] a chegar de África, Roma tem dado prioridade a acordos com Governos africanos para gerir eficazmente os fluxos migratórios. Após a crise migratória de 2014-16, os esforços do Governo Italiano, incluindo o recente memorando União Europeia -Tunísia, contribuíram para um declínio significativo das chegadas de migrantes.
- Segurança energética: Itália está fortemente dependente das importações de energia, com 79,2% das suas necessidades provenientes do estrangeiro, muito acima da média da União Europeia (UE) de 63%. A crise da Crimeia – um conflito político-militar que ocorreu em 2014, envolvendo a Rússia e a Ucrânia – e a guerra na Ucrânia realçaram a necessidade de diversificação, levando o Governo Italiano a reforçar os laços com os produtores africanos de hidrocarbonetos. Actualmente, a Eni extrai mais de 50% daquele recurso de África, e Itália pretende tornar-se uma ponte energética entre o continente europeu e o africano.
- Oportunidades económicas: Itália vê África como um mercado promissor para as suas pequenas e médias empresas (PME), a espinha dorsal da sua economia. A Conferência Itália-África, iniciada em 2016, tornou-se uma plataforma para promover os investimentos italianos e reforçar as relações comerciais com os países africanos.
- Segurança geopolítica: A região do Sahel, que Itália considera parte do “Mediterrâneo alargado”, tornou-se um foco da diplomacia e do envolvimento militar italiano. A instabilidade na região, associada à retirada das forças francesas e americanas, permitiu ao Governo italiano solidificar a sua presença através da base militar MISIN no Níger, a única unidade ocidental que permanece na região.
Uma presença diplomática e militar crescente
Desde 2010, Itália expandiu a sua rede diplomática em África, incluindo em países estratégicos como o Níger, o Burkina Faso, o Mali e a Mauritânia. Abriu novas embaixadas e reforçou as missões bilaterais, distinguindo-se pela participação activa em iniciativas de segurança e estabilização. Esta abordagem alinha-se com o objectivo mais vasto do Estado italiano de actuar como uma força estabilizadora na região, contribuindo para operações de manutenção da paz e anti-terrorismo.
Desafios e concorrência estratégica
Embora as ambições de Itália sejam claras, o Plano Mattei enfrenta vários desafios. A concorrência no seio da UE, em particular com a França, pode afectar a influência italiana na África Ocidental. Ao contrário do Governo francês, que viu a sua presença diminuir na região africana, a Itália conseguiu aumentar. No entanto, será crucial alinhar as iniciativas italianas com as estratégias mais amplas da UE, como a Global Gateway – plano para investir em infra-estrutura e melhorar os sistemas de saúde, educação e pesquisa em todo o mundo – que promete 150 mil milhões de euros para investimentos no continente africano.
Além disso, a dinâmica geopolítica, os condicionalismos económicos e a estabilidade política dos países parceiros africanos desempenharão um papel fundamental na determinação do êxito do plano. A estratégia de Itália de se apresentar como um parceiro fiável e distinto de outros actores internacionais, incluindo antigas potências coloniais, é uma proposta forte. No entanto, a obtenção de benefícios tangíveis e sustentáveis para as nações africanas será fundamental para a construção de parcerias a longo prazo.
Uma visão a longo prazo para Itália em África
Para além de ser uma acção de política externa, o Plano Mattei faz parte de uma estratégia mais vasta destinada a reforçar o estatuto de Itália como potência média na esfera internacional. Ao equilibrar as ambições económicas com objectivos humanitários e de segurança, o país europeu pretende criar uma parceria mutuamente benéfica com África. Embora ainda não se saiba se esta iniciativa produzirá resultados duradouros, a posição proactiva do Governo italiano marca uma mudança significativa na sua política externa, com o continente africano firmemente no centro da sua estratégia global.
Fonte: Further Africa


























































