O ambiente empresarial moçambicano registou a maior queda já verificada no Índice de Robustez Empresarial, passando de 30% no terceiro trimestre para 25% no quarto trimestre de 2024 – uma descida de cinco pontos percentuais. Esta contracção reflecte as dificuldades estruturais e conjunturais enfrentadas pelas empresas, com perdas acumuladas superiores a 32,2 mil milhões de meticais (505 milhões de dólares). Os dados foram apresentados esta quinta-feira (20) pelo economista Eduardo Sengo, director-executivo da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), durante a 17.ª edição do Economic Briefing, evento que abordou a dinâmica de negócios e investimentos no País.
Segundo Sengo, “este relatório não é determinístico, mas sim um instrumento que permite acompanhar as tendências do desempenho empresarial, com base em inquéritos, encontros exploratórios e análises económicas”, tendo destacado ainda que os dados são recolhidos de forma desagregada por província e, posteriormente, consolidados a nível nacional.
Instabilidade macroeconómica
O ambiente macroeconómico manteve-se instável ao longo do trimestre, com indicadores mistos. A inflação baixou de 9,32% no terceiro trimestre de 2023 para 3,28% no quarto trimestre de 2024, reflectindo uma menor pressão sobre os preços, sem, contudo, produzir efeito significativo sobre o poder de compra.
“Embora tenha havido uma ligeira subida da inflação média mensal em Dezembro, a tendência trimestral foi de decréscimo”, explicou Sengo. A taxa de câmbio (MZN/USD) manteve-se elevada, afectando os custos de importação e restringindo o acesso a bens e insumos essenciais. Para além disso, as taxas de juro recuaram ligeiramente, mas continuam a representar um obstáculo ao financiamento empresarial.
O responsável da CTA referiu ainda que o ambiente macroeconómico se deteriorou quantitativamente três pontos percentuais no quarto trimestre, reflectindo a tendência de abrandamento da procura agregada, em parte, devido à estabilidade pós‑eleitoral e às dificuldades no acesso a divisas.
Escassez de divisas
O sector privado continua a enfrentar dificuldades no acesso à moeda estrangeira. A escassez de divisas persiste e compromete a capacidade de as empresas cumprirem os compromissos assumidos com fornecedores internacionais. Estima‑se que as necessidades cambiais não satisfeitas no primeiro trimestre de 2025 ultrapassem os 23,9 mil milhões de meticais (375 milhões de dólares), afectando, sobretudo, os sectores industrial (41%), da aviação (25%) e comercial (21%).
Segundo Sengo, “realizámos inquéritos para compreender a situação e verificámos que, ao longo do tempo, as necessidades de divisas das empresas aumentaram, mas os bancos comerciais não conseguiram satisfazer esses pedidos”. No quarto trimestre, acumulou‑se um montante de 400 milhões de meticais (6,3 milhões de dólares) em pagamentos não efectuados pelos bancos, o que impactou diversas indústrias e provocou a redução de operações, nomeadamente a queda na frequência de voos a partir de Maputo, devido à escassez de divisas para o sector da aviação.
Para mitigar o problema, a CTA propõe a intervenção do Banco de Moçambique, no sentido de fornecer liquidez temporária ao mercado, e o aumento do percentual de repatriação das receitas de exportação de 30% para 50%, especialmente para o sector da indústria extractiva.

Custos de produção elevados
Mesmo com a estabilidade de alguns preços administrados, os custos de produção permanecem elevados, sendo estimados prejuízos da ordem dos 32,2 mil milhões de meticais para o sector empresarial. Esta situação deve-se a factores como o aumento dos preços das matérias‑primas (por exemplo, o milho subiu cerca de 50%), a manutenção dos custos dos combustíveis em patamares elevados e a degradação das infra-estruturas logísticas, o que encarece o transporte de mercadorias.
Sengo enfatizou que “o impacto da redução da procura e das interrupções nas cadeias logísticas resultou numa queda do lucro por unidade de, aproximadamente, 18%”, pressionando as empresas que já operam com margens reduzidas.
Impacto no desempenho empresarial por sector
O recuo do Índice de Robustez Empresarial foi sentido em diferentes sectores da economia. Na agricultura, a produção baixou devido à irregularidade das chuvas e ao aumento do custo dos insumos. A indústria viu‑se confrontada com restrições cambiais que dificultaram a importação de matérias‑primas, provocando, assim, a queda da produção. No sector dos transportes, os encargos operacionais elevados foram agravados pela degradação das estradas e pelo surgimento de portagens ilegais. Já na hotelaria e restauração, a baixa procura e os custos elevados afectaram a rentabilidade do sector.
Os dados indicam uma redução significativa da margem de lucro das empresas no quarto trimestre, reflectindo a contracção da actividade económica. Segundo Sengo, “o índice de robustez empresarial nacional caiu 5 pontos percentuais, representando a maior queda já registada, em contraste com quedas anteriores que rondavam os 1 ou 2 pontos percentuais.”
Tendências de emprego
A fragilidade da economia também se reflecte na dinâmica do mercado de trabalho. De acordo com a CTA, o Índice de Disposição a Contratar reduziu de 21,2% para 17,4%, evidenciando que as empresas estão a diminuir o recrutamento face às incertezas económicas. Para além disso, o Índice de Emprego Temporário e em Tempo Parcial situou‑se em 30,8%, demonstrando a aposta das empresas em contratações flexíveis.
Sengo referiu que, “ao contrário do que é típico no quarto trimestre, quando se observa o crescimento da contratação de mão‑de‑obra temporária – sobretudo em função do turismo –, este ano assistiu‑se a uma redução do índice de tendência de emprego, que passou de 109,7 para 99,74”. A nível provincial, Niassa destacou‑se, atingindo 160 pontos.
Perspectivas para 2025 e soluções propostas
Face aos desafios económicos e com vista a reverter a tendência de queda na robustez empresarial, a CTA propõe um conjunto de medidas. Entre estas, encontram‑se a facilitação do acesso ao crédito (com a redução das taxas de juro e a criação de linhas de financiamento bonificadas), a implementação de políticas fiscais e aduaneiras favoráveis (como a isenção do pagamento de multas e juros fiscais e a flexibilização das auditorias aduaneiras) e o investimento em infra-estruturas logísticas, para reduzir os custos de transporte e potenciar a competitividade empresarial.
Adicionalmente, defende‑se o estabelecimento de um diálogo público‑privado estruturado, que permita a formulação de soluções eficazes e sustentáveis para o sector empresarial.
Sengo referiu ainda que “aproximadamente 40% das empresas possuem empréstimos até 2,5 mil milhões de meticais (39 mil dólares) e, entre essas, 70% não têm perspectiva de retoma a curtíssimo prazo”. Esta situação impõe a necessidade de medidas urgentes para injectar liquidez e apoiar as empresas afectadas.
O Economic Briefing abordou, ainda, a aprovação do Programa Quinquenal do Governo 2025‑29, que deverá trazer novas directrizes para o sector produtivo.
Texto: Felisberto Ruco




























































