Numa entrevista exclusiva ao Diário Económico, Edna Simbine, gestora da Área de Conteúdo Local da TotalEnergies EP Mozambique Area 1 Limitada, realça os resultados encorajadores dos programas de conteúdo local já alcançados pelo projecto Mozambique LNG.
Sem deixar de reconhecer os desafios significativos que há pela frente, partilha uma visão macro da estratégia delineada que aponta não só para os programas de formação e promoção do emprego local, como também para o robustecimento de competências da população jovem da província de Cabo Delgado, sem esquecer, claro, a capacitação e apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME) da região.
A responsável reitera ainda que o foco passa por continuar a apoiar o tecido empresarial local e a promover o desenvolvimento das capacidades nacionais para que, num futuro próximo, sejam partes integrantes da cadeia de valor do projecto Mozambique LNG no País, operado pela TotalEnergies.
Que balanço faz dos programas de Conteúdo Local do Projecto Mozambique LNG?
É um balanço francamente positivo o que fazemos da implementação dos nossos programas de conteúdo local no âmbito das acções desenvolvidas em torno da formação e apoio ao empresariado local. O objectivo é garantir a sua continuidade e reforçar o seu ímpeto. É certo, como sabe, que estamos numa situação de força maior e, portanto, com as operações do projecto Mozambique LNG paradas – e isso acarreta limites e desafios na nossa acção –, mas dentro destes constrangimentos, conseguimos trazer uma abordagem forte do conteúdo local.
A Estratégia de Conteúdo Local do projecto Mozambique LNG assenta em três pilares: a promoção do emprego local, a aquisição local de bens e serviços e o desenvolvimento de competências e capacidades locais. Cada um deles engloba um conjunto de actividades e iniciativas desenvolvidas e implementadas por forma que optimizem o conteúdo local. É importante também frisar que a nossa visão está alinhada com o Programa Único do Governo para esta vertente.
Adicionalmente, gostaria de realçar que implementamos a nossa estratégia, não só com foco nos nossos programas de Conteúdo Local na indústria de Petróleo & Gás (P&G), mas também em sectores transversais, como a Construção Civil, a Agricultura, Serviços Gerais, entre outros.
Queremos contribuir para que as vantagens competitivas de Moçambique sejam aproveitadas na sua plenitude, através da optimização das oportunidades geradas directa ou indirectamente pelo Projecto Mozambique LNG.
Edna Simbine
Elencou as várias áreas de intervenção do projecto. Peço-lhe alguns outros exemplos concretos de resultados alcançados ao longo dos últimos anos…
Sempre dentro da nossa Estratégia de Conteúdo Local, implementámos iniciativas centradas no desenvolvimento de competências e capacidades para jovens e MPME, através do CapacitaMoz, uma plataforma que visa essencialmente albergar as iniciativas de capacitação relacionada com as MPME, cidadãos e instituições públicas moçambicanos.
Das diferentes iniciativas implementadas, destaco quatro: a primeira diz respeito à capacitação de jovens e, nesse âmbito, foram celebrados dois memorandos de entendimento com institutos de formação, direccionados à formação técnico-profissional de jovens moçambicanos em Cabo Delgado, e os resultados práticos já se fazem sentir.
Com o Instituto de Formação Profissional e Estudos Laborais Alberto Cassimo (IFPELAC), formámos, de 2022 até à data, 489 jovens, dos quais 196 mulheres, e, com o Instituto Industrial e Comercial de Pemba (IICP), formámos no primeiro ciclo de 12 meses, 195 jovens, dos quais 133 são mulheres.
A segunda está relacionada com o apoio à capacitação de MPME: implementámos, no ano transacto, em parceria com o Instituto Nacional de Normalização e Qualidade (INNOQ), o programa de certificação de qualidade ISO 9001, que culminou com a obtenção do respectivo certificado por parte de 14 empresas de Cabo Delgado. Neste âmbito, promovemos ainda um programa de desenvolvimento empresarial com o intuito de capacitar empresas moçambicanas nas áreas de Gestão, Finanças, Recursos Humanos, Marketing, Qualidade e Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho, seguida de sessões de orientação e mentoria.
A terceira iniciativa que destaco é o nosso programa de assistência a empreendedores ao nível comunitário. Aqui apoiamos a formalização e expansão dos seus negócios, prestando assistência na constituição e capacitação de MPME, Cooperativas e Associações, com foco no norte da província de Cabo Delgado, nos sectores da Agricultura, Pesca, Serviços Gerais, Construção Civil, Transporte e Logística.
Por fim, destacamos a abertura do Balcão de Atendimento Único de Conteúdo Local no ano passado, que visa fortalecer as empresas de Cabo Delgado e o seu ecossistema. A sua operacionalização na cidade de Pemba tem como objectivo prestar assistência prática a empresas e indivíduos, apoiar programas de capacitação e identificar os parceiros públicos e privados certos para apoiar as MPME locais.

A área da formação e da criação de competências, essencialmente junto da população jovem de Cabo Delgado é, como sabemos, um dos pontos focais da acção da TotalEnergies na província. Porque é que o fazem e qual é a vossa estratégia a esse nível?
Moçambique apresenta um perfil demográfico jovem, sendo uma parte substancial da sua população composta por indivíduos com menos de 25 anos. Como resultado, o acesso à educação de qualidade e às oportunidades de emprego continua a ser fundamental para o desenvolvimento sustentável.
Para contribuir para o acesso à Educação (e como referido anteriormente), o projecto celebrou dois memorandos de entendimento, ambos destinados a melhorar as competências dos jovens em Cabo Delgado.
Embora reconheçamos que a ênfase na formação de jovens foi maioritariamente direccionada para Cabo Delgado, também nos orgulhamos de ter alargado o nosso apoio à promoção do emprego com programas de estágio no País e no estrangeiro, destinados a jovens de diferentes províncias.
Como resultado, a título de exemplo, dez jovens engenheiros moçambicanos foram integrados em programas de estágio no estrangeiro – seis no Gana e quatro nos Emirados Árabes Unidos -, e 50 jovens foram colocados em programas de estágio no País.
Além disso, num programa feito em conjunto com a Embaixada de França em Moçambique, concedemos, no ano passado, 27 bolsas a jovens moçambicanos para prosseguirem a sua formação superior naquele país europeu.

Passando mais para a área das MPME, que trabalho é que tem vindo a ser feito em benefício das empresas moçambicanas?
Já me tinha referido a algumas das acções que desenvolvemos, incluindo a que conduziu à certificação de várias empresas moçambicanas. De facto, temos desenvolvido iniciativas significativas que têm sido maioritariamente direccionadas para a capacitação e apoio ao financiamento, com destaque para o conteúdo comunitário.
A título de exemplo, o projecto introduziu um programa de microfinanciamento para auxiliar na criação e/ou recuperação de projectos empresariais em Cabo Delgado. Isto envolveu o reforço da capacidade das MPME, Associações Comunitárias e Cooperativas através de formação e assistência técnica e também a criação de um fundo de subvenções e créditos para apoiar as empresas, com especial enfoque nos distritos de Palma e Mocímboa da Praia. Tudo isto resultou, entre outras acções, na formalização de iniciativas empresárias de 104 projectos em diferentes áreas de actuação.
Adicionalmente, está a ser implementado um Programa de Desenvolvimento Empresarial que visa capacitar empresas nacionais em diversas áreas. O programa inclui sessões de orientação e mentoria para melhorar as actividades diárias e os processos internos, no sentido de melhorar o posicionamento das empresas no mercado. Vinte e três MPME concluíram com sucesso a formação. Um segundo grupo de 25 empresas está actualmente em formação, de um total de 100 com que se pretende trabalhar na primeira fase.
Entretanto, no âmbito do pilar da aquisição local de bens e serviços, um dos principais objectivos é promover a criação de ‘joint ventures’ e parcerias entre empresas locais e empresas locais e estrangeiras, para fomentar a transferência de tecnologia e o desenvolvimento de capacidades dentro e fora da indústria de petróleo e gás.
Para tal, apoiamos uma missão empresarial para França, estabelecendo assim uma ligação entre as associações empresariais moçambicanas e a EVOLEN, uma associação empresarial francesa do sector da energia.

A propósito dessa parceria com a EVOLEN, o que é que preconiza o memorando assinado entre esta associação e a CTA?
A interacção com a EVOLEN foi uma boa oportunidade para estabelecer a ponte de que falava entre as empresas moçambicanas e empresas estrangeiras. Dito isto, esta é a primeira de um conjunto de iniciativas similares que pretendemos implementar no sentido de estimular parcerias que possam contribuir para reforçar as empresas nacionais e para a maximização do conteúdo local.
O memorando de entendimento assinado entre a CTA e a EVOLEN visa, por isso mesmo, fomentar, facilitar e promover a colaboração entre os agentes económicos e entre as instituições moçambicanas e francesas. É um acordo que abrange a troca e partilha de informação científica, técnica e económica, o estabelecimento de parcerias nos domínios industrial, tecnológico e comercial e o incentivo a oportunidades de negócio e ao desenvolvimento da cadeia de suprimento entre empresas francesas e moçambicanas.
Com os canais de comunicação já abertos e o acordo de cooperação em vigor, as etapas subsequentes envolvem a participação das empresas filiadas em cada associação, em reuniões bilaterais e multilaterais, de modo que se avalie o potencial para formação de parcerias, incluindo em sectores transversais. Nós pretendemos, fundamentalmente, através desta e outras parcerias a serem desenvolvidas, contribuir para o fortalecimento da competitividade das empresas moçambicanas e maximizar o Conteúdo Local. Aliás, a maximização desta vertente é o cerne da nossa estratégia. Queremos contribuir para que as vantagens competitivas de Moçambique sejam aproveitadas na sua plenitude, através da optimização das oportunidades geradas directa ou indirectamente pelo Projecto Mozambique LNG.
BI – Edna Simbine
É a Gestora de Conteúdo Local da TotalEnergies EP Mozambique Area 1 Limitada, operadora do projecto Mozambique LNG. Antes de ocupar esta função, foi supervisora de estratégias de contratação de Conteúdo Local.
Com um mestrado em Gestão da Cadeia de Suprimentos e Logística pela Universidade de Warwick na Grã-Bretanha, tem uma ampla experiência em estratégias e gestão de Procurement, Inventário e Logística no sector da Mineração.




















































