O Grupo Entreposto acaba de entrar numa nova era da sua história secular no mercado moçambicano. Mudou a imagem, conta com um accionista de peso – o Grupo JAP – e mudou também as suas ambições. Jorge Brites, CEO da Companhia de Moçambique, Holding do Entreposto, ajuda-nos a perceber o percurso do Grupo desde a génese até às suas metas para o futuro.
Nascido em Moçambique, em 1943, o grupo Entreposto está hoje presente em seis países e emprega mais de três mil colaboradores. Em Moçambique, é uma referência nas soluções de mobilidade com viaturas ligeiras e pesadas, máquinas agrícolas e industriais e outros serviços adjacentes, mas também representa marcas líderes em Tecnologias de Informação.
Recentemente apresentou uma nova imagem ao mercado, representativa, nas palavras de Jorge Brites, CEO da Companhia de Moçambique que detém a bem mais conhecida marca que é, de facto, o Entreposto, de uma mudança estrutural que se iniciou há alguns anos. “Passámos por uma situação financeira delicada enquanto grupo, não adianta escondê-lo. O que fizémos? Assumimos a dificuldade, houve uma mudança societária na empresa com a entrada do Grupo JAP, reestruturámos as operações, e agora, surgimos renovados. E sim, pode dizer-se que somos um novo Entreposto”.
Gostava que me falasse um pouco desta marca forte, de Moçambique até, que é o Entreposto, e como é que ela está hoje?
Para conhecermos a realidade de hoje, temos de perceber o percurso que nos trouxe até aqui. Talvez as pessoas não tenham muita compreensão do que é a Companhia de Moçambique, mas foi uma companhia majestática que, inclusive, criava e imprimia moeda, tinha poderes soberanos principalmente na zona Centro do País, onde o grupo Entreposto começou. Começámos na Beira com negócios muito ligados à agro-indústria, como o do caju, algodão e indústrias alimentares, e todo esse percurso demonstrava o valor e o reconhecimento do que hoje existe em Moçambique. Começámos como Companhia de Moçambique, mas, ao longo do tempo, fruto do desenvolvimento dos muitos negócios que temos, a marca Entreposto foi a que perdurou e a que as pessoas reconhecem. A Companhia de Moçambique é uma holding que gere todos os negócios que o Grupo Entreposto tem em Moçambique, ou seja, desde a importação ao retalho automóvel, a assistência automóvel em todo o País, a participação nas tecnologias de comunicação, onde temos a participação em 100% da DataServ, maior distribuidora da HP e muito reconhecida pela marca. Temos também parcerias com a Microsoft e outras marcas de computadores, além de parcerias com empresas na área do arquivo e com um grupo português onde somos maioritários com 75% da gestão de arquivos. Representamos ainda marcas de ar condicionados como a Mitsubishi e K9, esta última é nossa propriedade, criada para o contexto moçambicano.
A área automóvel é ainda o baluarte das vossas actividades, certo?
Certo. Queremos estar presentes em todos os negócios que tenham rodas. Falaremos disso mais à frente quando abordarmos a entrada do novo accionista – o Grupo JAP. Não adquirimos apenas a permissão como também temos o direito de entrar em todo tipo de negócios, mas, claramente, em Moçambique somos conhecidos pela área automóvel pelos anos que temos estado a desenvolver este negócio, desde 1966, ano em que o Grupo se internacionalizou e foi para Portugal e para o Brasil. Somos um grupo moçambicano, que passou para outros mercados.
Apresentaram, recentemente, a nova imagem da empresa. O que mudou, de facto, no Grupo Entreposto?
Vou recuar uns três ou quatro anos. O Grupo tinha enormes dificuldades financeiras em Moçambique, com a dívida que tínhamos face ao volume de negócios, éramos completamente insustentáveis e isso fez com que mesmo em Portugal a banca solicitasse os antigos accionistas no sentindo de encontrar uma solução. E essa solução surgiu com o Grupo JAP, em 2020. A reestruturação em Portugal já estava avançada e foi mais rápido e fácil de fazer, até porque a matriz das acções do grupo JAP, que tinha mais presença no Norte de Portugal, condizia com a do Grupo Entreposto que tinha presença mais ao Centro e Sul. Já em Moçambique, por causa da dívida, foi mais complicado. O volume e as diversas formas de dívida que tínhamos fizeram com que fosse um processo longo e moroso, e o
Grupo ficou na dúvida se conseguia ou não fazer a reestruturação económica e trazer a dívida para muito próximo de zero e assim começar a pensar o futuro.
“Contámos com a solidez financeira que o Grupo JAP tem e com uma estratégia clara não só para Moçambique, mas também para África”
Como é que se resolveu a situação?
O Grupo Entreposto tinha um património muito elevado e foi possível fazer isso com base na negociação com muitos stakeholders. Também conjugámos o interesse da Toyota em estar presente no mercado moçambicano. Concluímos com eles o negócio de passar a importação para a CFAO que é o importador da Toyota em Moçambique (é também o braço da Toyota para todos os países de África). Acordámos com eles que ficassem com a importação e a distribuição em Maputo e, simultaneamente, estabelecemos um contrato em que representamos a marca Toyota em todas as províncias onde estamos. Hoje somos o parceiro da CFAO para desenvolver todo o negócio da Toyota nas províncias, porque, como fruto também dessa reestruturação, conseguimos que todos os imóveis que temos para a operação permanecessem dentro da esfera do Grupo. Assim conseguimos ter uma presença nacional que assegura a assistência em qualquer província mesmo para clientes que estejam em Maputo. Em Outubro de 2021 começámos a ter todos os processos muito fechados em termos de administração financeira e dissemos “sim” ao futuro do Grupo Entreposto em Moçambique. Foi aí que começámos a reestruturação interna.
E no ano passado, como é que evoluiu a empresa em termos de consolidação no mercado, já na nova era?
Ao longo do ano 2022 continuámos o processo interno de reestruturação, mas já com muita presença no negócio como, por exemplo, com a Isuzu, uma marca que em Moçambique ainda não tem muitas operações como tem noutros mercados. Portanto, o ano 2022 permitiu-nos fechar a reestruturação e preparar a organização para os novos valores que o Grupo JAP nos veio incutir. Obviamente tivemos de contar também com a solidez financeira que o Grupo tem e uma estratégia clara não só para Moçambique, mas também para África.
Ou seja, os nossos níveis de crescimento futuros estão assentes num pilar estratégico que é o desenvolvimento de negócios neste continente. O grupo já estava presente no Uganda, Quénia, Tanzânia e Angola, muito ligado a máquinas industriais e camiões. Tudo isso era uma forma de preparar a organização para agora, em 2023, começarmos a dinamizar as operações.
Em que é que a mudança de imagem, de facto ilustra este novo posicionamento de que fala?
Só a fizemos agora precisamente porque mudar a imagem por si só não chega, precisávamos de ter a estratégia muito bem traçada. O ano 2022 foi também um ano em que, pela primeira vez, começámos a procura de quadros moçambicanos. Queremos desenvolver actividades dentro da estratégia que o Grupo tem para cada uma das áreas de negócios, mas queremos fazer isso com quadros moçambicanos. Neste momento temos uma equipa com 25 colaboradores dos quais alguns já estavam na organização. Fomos ao mercado para recrutar e vamos levá-los agora para Portugal por seis meses para formação. Devem regressar à sua terra com outras competências.
Em termos de actuação, existem áreas novas e outras que vão ser reforçadas com esta dinâmica operacional?
Não tanto em termos de novas áreas. Gostamos de desenvolver tudo o que tenha rodas, desde os meios agrícolas aos industriais ou até mesmo ao mercado dos camiões, queremos trazer uma nova postura e passar a imagem de que queremos estar próximos dos nossos clientes. Acreditamos que desenvolver negócios nos países onde estamos e em qualquer outro onde pretendemos estar em África não é fácil. Todos os nossos clientes têm as suas dificuldades e se conseguirmos estar muito perto deles conseguiremos criar uma plataforma para aportar essas dificuldades, e todos sairão a ganhar. Temos, efectivamente, de fazer essa transição e dar esse passo para fora. A mudança de imagem tem muito que ver com isso. Toda a gente conhecia o Entreposto em Moçambique pela cor vermelha e agora, não só alterámos a cor para dar uma noção de reverência, como também a cor azul é sinónimo de transparência, ética e profissionalismo, valores que são pilares básicos da nossa estratégia de desenvolvimento.

“Queremos desenvolver-nos dentro da estratégia que o Grupo tem para cada uma das áreas de negócios, mas queremos fazer isso com quadros moçambicanos. E fortalecer presença em África”
Como olha para o mercado automóvel em Moçambique?
O mercado em Moçambique não é novo, mas ainda é muito diminuto pelas características económicas do País. O mercado dos automóveis usados tem um valor muito superior, com a importação de carros com muitos anos do Japão, também por via de crédito. Assim é muito difícil o mercado crescer. Apesar disso, atingiu picos que, acreditamos, com o desenvolvimento que se espera como a exploração do gás em Cabo Delgado, pode induzir a vinda de inúmeras empresas. Isso proporcionará, a médio prazo, um crescimento do mercado dos automóveis novos. Nós, no mercado dos novos, queremos desenvolver o negócio da Toyota nas outras províncias e, simultaneamente, queremos ganhar a quota de mercado na Isuzu, que é uma marca que tem muito mais potencial do que nos anos passados, quando ocupava a 5.ª posição. Nós, grupo JAP e Entreposto em Moçambique, temos uma estrutura muito ambiciosa e queremos colocar a Isuzu no top 3 em Moçambique.
O sector agrícola está numa grande dinâmica em Moçambique. Já começam a notar isso na vossa operação?
Ainda não. É um sector no qual o Governo moçambicano está a apostar fortemente e muito bem. Ou seja, mesmo com o potencial que tem ao nível dos recursos minerais, o País tem conseguido trabalhar e transformar o sector que é base [a agricultura]. Não podemos esquecer que o País é muito grande, a sua agricultura é ainda muito familiar, a mecanização desse sector é crítica para o desenvolvimento e ainda é muito sustentada por projectos apoiados pelo Banco Mundial. A preocupação, agora, é captar esses apoios para a mecanização da agricultura. Em 2022 colocámos cerca de 120 tractores a funcionar, mas há uma pequena dificuldade no crescimento porque só podemos avançar à medida que o Estado moçambicano conseguir captar recursos.
Há potencial no nosso mercado para o rent-a-car?
Acredito que sim. O mercado do rent-a-car no País é ainda muito dominado por operadores informais que não trazem nada que empresas, ONG ou organizações internacionais que estejam no País procurem. Não conseguem oferecer qualidade do serviço, viaturas novas e acreditamos que com a Six o rent-a-car vai desenvolver o seu potencial. Trabalhamos com este segmento numa perspectiva mais corporativa e profissional e já estamos a ter algumas experiências boas. O desenvolvimento da Reserva de Maputo, por exemplo, já está a trazer outro tipo de turismo e um pacote direccionado a isto constitui um novo serviço. É nisso que estamos focados a médio prazo. E no curto prazo focamo-nos em soluções de mobilidade para os diversos sectores, mas com muita ênfase no corporativo e noutras províncias fora de Maputo.

Texto Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva



























































