Até 2017, a aldeia da suzi, em cabo Delgado, no norte de Moçambique, era uma aldeia normal como qualquer outra. As crianças brincavam, passeavam, estudavam e viviam todas no calor e protecção das suas famílias.
Crianças e adultos podiam fazer as suas actividades de forma livre, ouviam-se pássaros todas as manhãs a anunciar a chegada do sol e o emanar de um novo dia. Por essas alturas, ninguém imaginava o pesadelo que logo transformaria a aldeia num lugar sombrio e de muita dor: chegaram à aldeia alguns monstros que atacavam e destruíam tudo o que lhes aparecia pela frente.
Matavam crianças e adultos, separavam os filhos dos pais, impediam as crianças de frequentar as escolas… a aldeia ficou irreconhecível e inóspita. Em vez do chilrear dos pássaros, ouviam-se estrondosos sons de armas a disparar e, cada vez que uma bala era expelida, uma vida era ceifada e uma família atingida. O cheiro doce das flores que no campo se abria foi substituído por uma mistura perfeita de pólvora e de cadáveres putrefactos que ornavam a aldeia (se assim ainda se pudesse chamar).
Em meio dessa nova e triste realidade daquele lugar, Suzi, uma menina de 10 anos, viu-se obrigada a fugir de casa e caminhar centenas de quilómetros para escapar dos “monstros” que atacaram a sua aldeia, na esperança de chegar a um lugar seguro.
O enredo acima está expresso no livro A Aldeia que os Monstros Engoliram, lançado a 22 de Março no Instituto Camões, em Maputo, pela ONGD Helpo, em parceria com a empresa Galp Energia.
O livro é da autoria de Maria João Venâncio que, a partir das histórias das crianças de Cabo Delgado, criou uma personagem fictícia (Suzi) para contar a realidade vivida por quase todas as crianças e jovens daquela região e conta com ilustrações de Luís Cardoso.
A Aldeia que os Monstros Engoliram, como explica Carlos Almeida, coordenador nacional da Helpo, resulta de um projecto realizado pela própria no ano passado, designado “A Escola do Caminho Longo”, que retrata a história de 20 crianças bolseiras da ONG que tiveram as suas vidas afectadas pelos ataques terroristas em Cabo Delgado.
São histórias, segundo Carlos Almeida, “muito dramáticas e que mereciam ser contadas. Por isso, a Helpo decidiu fazer este livro infantil como forma de fazer chegar a mensagem a crianças de outras idades, alertar a sociedade sobre a situação que as crianças em Cabo Delgado vivem, apesar de a situação no momento estar muito melhor, e angariar fundos para continuar a ajudar as crianças dessa região”.
A Fundação Galp, representada por Claúdia Ngwenya, afirmou o seu compromisso de longo prazo com o desenvolvimento económico e o progresso social de Moçambique e dos moçambicanos, sendo que 26% das verbas que alocam às iniciativas de responsabilidade social se destinam a projectos educativos.
A Helpo opera na província de Cabo Delgado desde 2009. Quando começaram os ataques armados, a organização começou a acompanhar atentamente para onde as famílias se tinham deslocado e sobre as condições existentes, sobretudo as relativas à escola das crianças.
Texto Filomena Bande • Fotografia Paulo de Almeida
























































