A falta de know-how de gestão e de skills de liderança de muitos empreendedores moçambicanos tem sido um dos grandes problemas que fazem com que várias pequenas e médias empresas (PME) não consigam estabilizar-se no mercado. De um universo global de mais de 100 mil PME que existem no País, poucas são as que conseguem ter uma gestão sólida e uma significativa evolução e amadurecimento dos seus negócios.
Na verdade, este tem sido um dos principais problemas que perdura já há vários anos. No entanto, existem outros desafios para as PME nacionais.
A ideiaLab anunciou, no início de Dezembro, o lançamento da ‘Boost’, uma academia executiva de negócios online que pretende desenvolver competências de gestão e liderança. O objectivo é potenciar o talento e o crescimento de pessoas, equipas e negócios.
Para isso, a ideiaLab associou-se a duas prestigiadas organizações: a União Europeia (UE) enquanto co-financiadora do projecto, e a Nova SBE Executive Education (Faculdade da Universidade Nova de Lisboa) como parceira de excelência no ensino.
Em entrevista ao DE, Tatiana Pereira, Executive Catalyst da ideiaLab, explica o projecto.
O que é e como surge a Academia Boost?
A Academia Boost surge de uma oportunidade da União Europeia (UE) para a qual concorremos e fomos um dos beneficiários. Essa oportunidade veio para colmatar um vazio que existe no mercado, não só de empreendedores e de PME, como também do mercado em geral nas suas competências de gestão e liderança.

Sentimos que, dentro do mercado, as PME chegam a uma determinada fase de crescimento na qual os seus co-fundadores e gestores ficam com dificuldades sobre como gerir o seu negócio e sem saber qual o caminho a seguir. Além disso, acontece também a contratação de pessoal sem competências profissionais.
“Sentimos a necessidade de trazer conteúdos relevantes, com padrões internacionais, para permitir que os moçambicanos tenham acesso a uma educação com certificação reconhecida internacionalmente”
O objectivo da Academia Boost é potenciar o talento de pessoas e equipas em negócios, oferecendo cursos de curta duração em formato digital com temas-chave de gestão e liderança. O que pretendemos com esta aposta em formato digital é fazer com esta academia executiva de negócios, nesta plataforma, seja mais inclusiva e que chegue a todos os moçambicanos, e não apenas aos gestores residentes em Maputo.
Sentimos a necessidade de trazer conteúdos relevantes, com padrões internacionais, por isso esta parceria que firmámos com a Nova School of Business and Economics (SBE) da Universidade Nova de Lisboa, na qual o nosso papel é adaptar a nossa realidade, e também permitir que os moçambicanos tenham acesso a uma educação com certificação reconhecida internacionalmente.
Mas como funciona na prática esta academia?
É uma plataforma online. Hoje em dia, temos apenas a home page, mas a partir de Fevereiro teremos os cursos disponíveis
E como é que os interessados se podem inscrever nesta plataforma? Quem são as pessoas que têm acesso à mesma?
Qualquer pessoa que tenha uma PME ou que trabalhe nela, seja uma grande organização ou pequena, ONG ou Governo, pode inscrever-se, pois o foco é mesmo a gestão e a liderança. Queremos pensar numa lógica de ecossistema empreendedor e conseguir ter uma turma de pessoas de mundos diferentes, porque acreditamos que a grande lacuna que existe nas PME tem que ver com a ligação ao mercado. Logo, pretendemos que, a cada momento de aprendizagem, se tenha um curso de gestão ágil, que possa receber um director de uma PME, um empreendedor, um gestor do banco, etc., para começarmos a criar esta ligação entre diferentes partes do ecossistema.
Quantos cursos serão ministrados na plataforma?
No total, teremos seis cursos que serão lançados ao longo ano, designadamente Gestão de Negócio, Inovação Estratégica, Liderança Transformadora, Novo Marketing, Equipas de Alta Performance e Gestão Ágil.
O nosso objectivo, tendo nós assumido o compromisso com a União Europeia, é formar 800 líderes durante dois anos. Desses 800, 30% serão bolsas de estudo que queremos atribuir a empreendedores e a PME que não terão acesso. Para isso, estamos a apostar em parcerias com algumas organizações para dar oportunidade aos membros dessas PME. São parcerias que queremos fechar em Janeiro.
Como serão os conteúdos leccionados nestas formações? Serão relacionados com a realidade moçambicana?
O acordo que existe com a Nova SBE é que esta faz o design de todos os cursos e nós fazemos a localização e adaptação desses conteúdos. Estamos ainda a avaliar, pois há determinados conteúdos que queremos adaptar localmente para estarmos mais próximos da realidade moçambicana.
Este é um dos projectos que a ideiaLab tem em Moçambique?
A ideiaLab gere hoje alguns projectos. Temos em carteira este com a União Europeia, estamos também a fazer o “Acredita Emprega e o Agora Emprega”, que são da Secretaria de Estado da Juventude e Emprego e Banco Mundial. No “Acredita Emprega” somos apenas nós, e no “Agora Emprega” temos uma parceria com a Ernst & Young.

Temos o FemTech que é um programa de aceleração de negócios das mulheres e continuamos com o Standard Bank enquanto parceiros da sua incubadora.
Qual foi o impacto do covid-19 na ideiaLab? Houve alguma mudança no foco da vossa organização?
Houve muitas mudanças e uma alteração completa do modo de funcionamento. Passámos por uma fase ‘apertada’ em que, numa semana, vimos todos os nossos projectos suspensos. E rapidamente tivemos de entender como é que nos deveríamos adaptar à nova realidade.
Fizemos um processo interno de inovação, muito acelerado, para entendermos como é que podíamos tornar a nossa oferta em digital e, para o fazer, apostámos na informação interna. Também na altura pior do covid-19, lançámos um conjunto de webinars e entrevistas para apoiar empreendedores e começámos a fazer workshops internos. E tivemos a sorte de termos o primeiro cliente que foi a FSD Moçambique.
Hoje em dia, todos os nossos trabalhos estão em formato digital. Este ano, estiveram também em formato presencial, e acordámos com todos os clientes que manteríamos os dois. O digital trouxe uma perspectiva muito interessante: antes achava-se que tudo se concentrava em Maputo, mas, hoje, 40% dos nossos programas são fora da capital. Por isso, a abrangência regional é muito mais inclusiva.
Tendo em conta que a ideiaLab existe há 12 anos em Moçambique, como é que caracteriza o empreendedorismo no País?
O empreendedorismo começa finalmente a ser percebido na nossa economia como um caminho a seguir. Hoje em dia, é já uma agenda do Governo e de algumas organizações não-governamentais (ONG).
Actualmente, existe cada vez mais consciência de que este é o caminho a seguir, e as pessoas estão proactivamente à procura de fazer o seu percurso no sentido de empreender, porque percebem que não há outro tipo de oportunidade.

Se falarmos em termos de ecossistema, temos mais apoio do que tínhamos há cinco anos. Ainda assim, não é suficiente. Só no ano passado formámos 1600 pessoas e tivemos 12 mil candidaturas para estas vagas, sendo que cobrimos praticamente 10%.
Depois, o ambiente de negócios é ainda hostil para os grandes e para os pequenos que estão a começar, não existe um sistema de apoio para estas pessoas. E existem também algumas barreiras culturais, principalmente para os jovens.
Como é que olham para esta ligação entre os empreendedores e o mercado do trabalho? Acha que o mercado aceita naturalmente este tipo de pessoas que pretendem empreender?
Sim, o mercado procura-as cada vez mais. Muitos dos parceiros que temos, por exemplo, do sector privado, olham também para os nossos programas como uma ponte de talento, visto que, à partida, os jovens que passam por nós têm um mindset completamente diferente. Já há esse reconhecimento e essa procura.

























































