O receio de instabilidade pós-eleitoral em Angola mais que duplicou a procura nos estabelecimentos comerciais em Luanda, com enchentes de populares ávidos em garantir alimentos no dia que antecedeu as quintas eleições angolanas.
Frescos, arroz, óleo e massas alimentares foram os produtos com mais saída nos diversos armazéns e estabelecimentos comerciais da capital angolana, onde os gestores das superfícies garantiram responder à procura dos consumidores.
A considerável presença de pessoas, entre compradores e vendedores, no mercado das Pedrinhas, no bairro da Terra Nova, no distrito urbano do Rangel, despertou a atenção de quem por ali circulava, num intenso movimento também de viaturas que abasteciam os armazéns. Os comerciantes reconheceram ser uma enchente anormal, em comparação com os dias anteriores, e associaram a procura por bens da cesta básica às eleições de hoje, quarta-feira, 24 de Agosto, devido a receios de instabilidade após o sufrágio.
Natália Francisco, gerente de um armazém daquela circunscrição, disse à Lusa que a procura de produtos no seu estabelecimento aumentou de forma considerável, sobretudo ontem, 23 de Agosto, “porque as pessoas estão preocupadas” com o pós-eleições.
“Acredito que se deve àquilo que se está a dizer sobre as eleições. As pessoas estão preocupadas porque não sabem o que vai acontecer depois das eleições. Então, estão a querer aumentar o ‘stock’ das suas casas”, contou.
Com um elevado número de facturas em mãos e sempre atenta aos movimentos dos clientes presentes no armazém, esta gerente deu nota que o arroz, a fubá, o óleo e a massa alimentar lideram a procura dos clientes.
“Sim, temos quantidade suficiente para responder à procura. O arroz, a fubá, o óleo, a massa alimentar têm mais saída e em grandes quantidades, as pessoas estão a querer mesmo ter um ‘stock’ considerável em casa”, acrescentou.
Entre dezenas de clientes naquele armazém, Valdick Oliveira acorreu à zona comercial, adjacente ao Mercado dos Congoleses, para “fazer um bocadinho de compras” porque “a reserva de casa está baixa”. O funcionário público apontou, por outro lado, a necessidade de ter o essencial em casa por estar igualmente céptico sobre o que poderá surgir depois das eleições desta quarta-feira.
“Vim mesmo aumentar o ‘stock’ e também por causa de quarta-feira, dia das eleições. Não se sabe o que vai acontecer, por isso, vim aumentar a reserva da casa”, frisou.
Valdick Oliveira defendeu igualmente que os angolanos devem aderir às urnas, considerando, no entanto, como legítima a preocupação generalizada sobre instabilidade pós-eleitoral. “No meu ponto de vista, [o receio] é legítimo, porque não se sabe o que vai acontecer depois do evento desta quarta-feira, o que vem a seguir. Então, há necessidade de aumentar o ‘stock’ em casa” insistiu.
Naquela zona comercial, o intenso movimento de pessoas com produtos, transportados sobre a cabeça e em carros de mão, condiciona a circulação dos transeuntes, no mesmo local onde as vendedoras também comercializam produtos a retalho.
Numa outra superfície comercial, da mesma zona, a gerente Celestina Fernando fala em procura “anormal” de produtos, num dia em que considerou como muito agitado, devido às eleições.
“As pessoas estão preocupadas em fazer compras para prevenir já o que vai acontecer e estão preocupadas com isso. A procura multiplicou, sim”, disse. A gerente lamentou, por outro lado, o aumento dos preços dos produtos, em relação aos meses anteriores às eleições, referindo que o preço de saco de arroz de 25 quilogramas subiu para 9000 kwanzas (20 euros) contra os anteriores 7000 kwanzas (16 euros).
O aumento dos preços dos produtos da cesta básica também foi constatado por Mariana de Jesus Singui, que acorreu igualmente a um dos armazéns daquele mercado para comprar cinco quilos de arroz por 2500 kwanzas (5,7 euros).
Para a jovem desempregada, o aumento dos preços veio dificultar ainda mais a vida dos angolanos, que vivem o período que antecede as eleições gerais com “receios de guerra. Estão a dizer que vão fechar os armazéns, que pode haver uma guerra e que as pessoas estão a vir comprar qualquer coisa. Este receio não é normal”, salientou.
“Mas as coisas não estão mesmo boas neste país, o [quilograma de] feijão era 600 kwanzas [1,3 euros], mas agora está a 900 kwanzas [2 euros], as coisas estão mesmo mal. João Lourenço [actual Presidente angolano e candidato do MPLA, no poder] veio estragar o nosso país, não está mesmo bom”, atirou.
A grande movimentação de pessoas nas superfícies comerciais e mercados informais é registada ainda em vários pontos da capital angolana.

























































