Desde Janeiro de 2009, aquando do lançamento da rede bitcoin por Satoshi Nakamoto , os investidores já assistiram a alguns “crash” do mercado cripto. Mas este é diferente. No epicentro desta crise está um tipo de criptoactivo até então considerado dos mais credíveis e menos voláteis – literalmente classificado como “estável” – e que acabou por desmoronar: as stablecoins, criptomoedas cuja cotação é garantida por algoritmo ou por correlação à cotação de outros activos.
“Os problemas recentes das stablecoins sugerem que provavelmente estes são falsos nomes”, explica Rick Bensignor, CEO da Bensignor Investment Strategies, em declarações por escrito ao Negócios. Ao colapso da Terra USD (causado pela perda de paridade da Terra com o dólar, demonstrando que a correlação entre os dois activos não era garantida), juntou-se a perda generalizada de apetite do mercado pelo risco, colocando o segmento que ganhou destaque num mercado composto por cerca de 20 mil criptoactivos. A capitalização total afundou de 2,9 biliões de dólares no último trimestre de 2022 para 980 mil milhões de dólares. segundo dados da Coin Market Cap.
Também Ryan Ebner, analista da Schroders, salienta que perante o “crash” provocado pela Terra USD, “este tipo de stablecoins, que são, de facto, produtos estruturados, dificilmente serão aceites pelos reguladores”. Por isso, sugere que “a terminologia seja alterada e que esta seja orientada pela regulamentação”. Assim, propõe uma divisão entre stablecoins com cotação correlacionada ao preço de moedas fiduciárias, stablecoins directamente relacionadas com o preço de outros criptoactivos e ainda stablecoins cuja estabilidade seja assegurada por modelos matemáticos (como é o caso da Terra USD). Para o especialista, esta é uma forma de escalonar o perfil de risco de cada tipo de activo, sendo as criptomoedas sustentadas por moeda fiduciária consideradas as mais seguras.
Aliás, a Schroders sublinha que estas stablecoins conseguiram “manter a sua cotação, sendo vistas como um porto seguro, o que é um testemunho de como são projectadas”. Apesar do colapso, a Theter e USD Coin, duas stablecoins apoiadas no dólar, não chegaram a cair abaixo do patamar dos 0,99 dólares, estando a negociar na linha de um dólar.
Face a este cenário, a gestora de activos considera importante que, nos projectos regulatórios em curso, seja garantida a estabilidade do activo subjacente que assegura a cotação da stablecoin. “Consideramos que os reguladores devem aproveitar a natureza transparente da tecnologia de contabilidade distribuída, a fim de controlar os requisitos de reserva (das stablecoins), uma vez que estes podem ser controlados em tempo real. Em termos de concepção, o aspecto da estabilidade será ditado pela regulamentação”.
O regulador norte-americano sugeriu recentemente que as stablecoins devem ser reguladas da mesma forma que os bancos, com depósitos que são assegurados pela Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC). “Isto faz sentido”, acrescenta Schroders.
No momento, acumulam-se os especialistas que pedem com urgência a regulação sobre criptoactivos, não só para a protecção dos investidores, mas como forma de dar clareza ao mercado que poderá, assim, ter mais espaço para crescer. Em entrevista à Harvard Gazette, o professor de economia desta Universidade, Scott Duke Kominers, salientou que alguma regulação é “boa para a indústria”, de forma a que as criptomoedas cheguem ao meio tradicional.
Em simultâneo, multiplicam-se também os alertas. “As stablecoins têm o potencial de perturbar o sistema SWIFT”, considera o analista da Schroders sobre o sistema que tem estado no centro das atenções devido às sanções à Rússia. “Sendo o SWIFT um sistema de mensagens tendo em vista transacções interbancárias transfronteiriças, torna-se um desafio para as partes negociarem internacionalmente quando são banidas desta rede”, sublinha a Schroders. As stablecoins não requerem um sistema SWIFT, dado que qualquer pessoa com uma carteira digital pode fazer transferências para outra carteira em qualquer lugar. Este tipo de activos pode tornar-se uma forma de contornar este sistema de mensagens interbancárias.
As stablecoins colocam ainda um desafio às “redes nacionais de pagamentos para que se tornem mais eficientes”, já que, “as comissões de cartão de crédito, normalmente pagas pelo comerciante aumentaram a uma taxa anual de 8% ao longo da última década”, refere Ryan Ebner.
























































