Causou sensação no mercado automóvel nacional a ‘mudança de mãos’ que se registou na Toyota Moçambique, marca historicamente líder de mercado no País (e no continente africano) e como passou a ser ‘conduzida’ pela multinacional CFAO. Como e para onde se dirige a Toyota? O CEO da empresa e o representante da marca no País respondem a seguir. Uma coisa é certa: não prometem abrandar a velocidade. Bem pelo contrário
Um ano após o início da operação, Fabrice de Creisquer, CEO da CFAO Automotive East & Southern Africa e Nuno Sousa, Managing Director da empresa em Moçambique, falam à E&M – DE por ocasião do lançamento de novos modelos da marca no mercado nacional.
Para lá do balanço dos primeiros meses no mercado, não deixam de revelar alguns dos objectivos e da presença no País desta gigante africana nascida em 1852 e presente em 39 dos 54 mercados do continente, que emprega 21 mil trabalhadores em áreas que vão (além do ramo automóvel) das infra-estruturas à mobilidade e à saúde. Com a maioria do capital detida, desde 2012, pela TTC (Toyota Tshsho Tsusho Corporation, sõgõ shõsha ou trading company do grupo Toyota), a gigante CFAO olha, ainda assim, para o curto mercado automóvel moçambicano como forte aposta
de futuro.
No curto prazo, o caminho passa pelo ramo automóvel e em “crescer e fazer crescer o mercado”, aumentando volume e vendas, essencialmente por via do lançamento de novos modelos e serviços da marca, mas, no futuro próximo, por um reforço do investimento com uma eventual entrada em novas áreas de negócio, “uma possibilidade bem real”, até porque “o potencial do País é ilimitado”.
Quase um ano depois da CFAO se ter assumido como representante oficial da Toyota em Moçambique, e até pelo facto de o Nuno ter estado na anterior empresa (Entreposto) que detinha a representação da marca no mercado nacional, já é possível fazer um balanço deste primeiro ano no mercado?
Nuno Sousa (NS): Começo por dizer que a CFAO Motors Moçambique tem, certamente, um apoio muito forte do Grupo CFAO, não apenas financeiro, como também operacional, tendo como base o facto de as boas práticas do Grupo serem bem partilhadas entre a organização e as suas marcas.
África é um continente dinâmico, sabemo-lo, e Moçambique segue, como sabemos também, esse padrão. Indo à sua pergunta, qualquer tipo de mudança pode ser enorme e ter grande impacto. Haverá certamente diferenças face à anterior empresa, mas essencialmente o que gostaria de destacar é o presente, e como é fundamental ter um grupo com tão vasto conhecimento e presença no continente. Isto é algo que, com todo o respeito, o Grupo Entreposto, de facto,
não tinha. Além disso, temos acesso à nossa plataforma de stock do Grupo para veículos (sempre mais de 2000 unidades) e peças no Dubai, Durban e em Le Havre. Acreditamos firmemente que esta plataforma nos ajudará a maximizar as exigências dos nossos clientes e a responder em conformidade com isso.

O papel do gás… enquanto o gás não sai do papel
Entre os pressupostos que o Standard Bank usou para concluir que “haverá crescimento mesmo em ambiente global conturbado” está também a esperança de que a produção de gás no projecto Coral Sul arranque já no segundo semestre deste ano — o Ministério da Economia e Finanças prevê que o projecto canalize receitas avaliadas em 34 milhões de dólares no Orçamento do Estado de 2022, provenientes da produção e exportação de GNL, e que a situação de segurança no norte do País possa permitir à Total retomar a construção do projecto de gás.
“Obviamente que, assim que tivermos mais elementos, iremos actualizar as nossas projecções à medida que informações relevantes se tornarem disponíveis. Por agora, estas projecções consideram uma retoma gradual do investimento em Moçambique.
E quais são os planos, no curto e médio prazo?
(NS) Como sabe, introduzimos, no final de Março, alguns novos modelos de passageiros acessíveis juntamente com o serviço “Toyota-Hino Connect Services”. Primeiro, esperamos que a nossa nova linha de modelos de passageiros atraia B2C (clientes individuais), que foi uma gama que nunca tivemos nos nossos produtos Toyota.
O projecto LNG deveria ser uma grande oportunidade para Toyota e para a Hino… pela sua incrível reputação.
Depois, todos vêm equipados com o serviço Connected, em colaboração com a Cartrack, um novo serviço que trará paz de espírito aos nossos clientes, porque, no caso de um furto de um automóvel, o nosso serviço irá apoiar o cliente a recuperar mais facilmente o veículo.
Na sua opinião, onde está o verdadeiro potencial do mercado automóvel? São as grandes empresas, é a classe média, qual é a sua opinião sobre isto?
(NS) Obviamente que o projecto LNG deveria ser uma grande oportunidade para Toyota e para a Hino, embora especialmente a Toyota, pela sua incrível reputação em qualidade, durabilidade e fiabilidade (QDR). Mas claro que, além disso, vemos muitas oportunidades no
segmento individual ou aquilo a que chamamos de classe média. O número deste segmento está a aumentar drasticamente e é aqui que a Hyundai e a Kia estão a desempenhar o papel principal, recordando que o segmento SUV contribui com 15% do mercado total.
Acreditamos firmemente que este segmento emergente merece mais investimento e cá estaremos para fornecer serviços e modelos adequados a isso mesmo.
Qual é o objectivo em termos estratégicos? É manter apenas os modelos Toyota ou expandir para outras marcas?
(NS): Um dos principais pontos fortes do CFAO é a ‘diversificação’ e estamos a colaborar muito bem com outras marcas, devo dizer. A Toyota é a nossa principal marca e, por isso, tentaremos sempre maximizar o seu desempenho, mas isso não significa que o nosso único foco seja apenas essa marca. Por exemplo, temos uma fábrica da VW no Ruanda que desempenha um papel fundamental na economia ruandesa, e continuaremos a procurar oportunidades de expandir a gama das nossas marcas. O que posso dizer é que estamos determinados em contribuir para o crescimento de ambos os lados da equação: a empresa e a sociedade moçambicana.
Pegando precisamente neste ponto, e alargando o âmbito mais para o grupo CFAO, estamos a falar de uma operação gigante de um grupo que lidera em África, e que actua em várias áreas de negócio. Como foi decidida esta entrada no mercado em Moçambique, um mercado ainda algo incipiente, com questões por resolver entre o mercado dos automóveis novos e usados importados?
Fabrice de Creisquer (FC): Sim, é verdade. A CFAO actua em quatro áreas de negócio que são a mobilidade, cuidados de saúde, consumidor e infra-estruturas. O volume total de negócios em todos os 39 países africanos é de cerca de 5,8 mil milhões de euros (AF2020).
O domínio da mobilidade empresarial contribui em 60% para os negócios do Grupo. Olhando para Moçambique, sabemos que é um país com um potencial ilimitado em termos de crescimento económico e desenvolvimento social. Olhando à nossa operação, um dos nossos pontos fortes é a ‘diversificação’ e isso está presente no nosso modelo de negócios, nas nossas marcas, nos países em que estamos e nas pessoas com que trabalhamos.
Temos mais de 21 000 colaboradores no Grupo e possuímos 160 filiais em toda a África, várias na Ásia. Esta base diversificada reflecte o nosso empenho em continuar a expandir o nosso negócio em toda a África e, claro, aqui em Moçambique.
Toyota é a nossa principal marca e, por isso, tentaremos sempre maximizar o seu desempenho, mas isso não significa que o nosso único foco seja apenas esta marca.
Mas em relação aos desafios do mercado, como reagir a eles e tornar o mercado dos veículos novos, de facto, competitivo ou atractivo para as marcas?
(FC): Sabemos desse facto, e não é uma questão exclusivamente deste mercado. No negócio automóvel, a CFAO trará serviços e produtos de qualidade mundial, contribuindo para o desenvolvimento de serviços de mobilidade no País. Porque somos muito mais do que uma empresa de venda de veículos.

Oferecemos uma variedade de negócios na cadeia de valor automóvel, tais como Loxea (negócio de financiamento interno e leasing), Automark (negócio de carros usados com certificação TOYOTA certified) e AutoFast (negócio de serviço rápido com peças de reposição). Dito isto, como parte do grupo TOYOTA Group, estamos satisfeitos com este primeiro ano, mas o nosso grande objectivo é reconquistar a quota de mercado que detínhamos no passado.
Sabendo, claro, que isso não depende apenas de nós, há todo um ecossistema que tem de estar alinhado, o que leva o seu tempo e depende de vários factores. Cá estaremos para o que for necessário melhorar no mercado, enquanto parceiro do País em debates e acções que sirvam para tornar melhor e maior o sector automóvel.
Existe a intenção de entrar noutras áreas, além da revenda automóvel, no mercado moçambicano, tais como o retalho, a saúde ou a energia?
(FC): Sim, sem dúvida. A CFAO actua em outras áreas de negócio — saúde, consumo e infra-estruturas —, e estamos sempre atentos às oportunidades que os diversos mercados em que estamos presentes nos oferecem e nos quais podemos agregar valor. Aqui, e de forma sustentada no tempo, seguiremos essa mesma estratégia.



























































