Warren Buffett construiu a Berkshire Hathaway ao longo de várias décadas, a partir de uma fabricante têxtil que tinha entrado em processo de falência, transformando-a numa poderosa empresa com uma enorme diversificação das áreas de negócio, desde os seguros à energia, passando pelos bens de consumo ao fabrico de doçaria.
O multimilionário alcançou estes resultados através de uma filosofia de gestão que se focaliza na importância dos resultados financeiros trimestrais e que dá autonomia aos diretores das dezenas de subsidiárias da Berkshire.
“O Oráculo de Omaha”
Não é à toa que chamam a este célebre investidor norte-americano o “Oráculo de Omaha”, localidade onde tem sede a empresa a que preside. Em dia de assembleia-geral da Berkshire Hathaway, são milhares os accionistas que se reúnem para o ouvir. O evento é conhecido como “Woodstock dos Capitalistas” e os seus conselhos são seguidos por uma legião de fãs.
Em 2014, quando o mundo assistiu às tensões entre a Rússia e a Ucrânia, com os russos a anexarem o território da Crimeia a pretexto de um referendo que foi considerado inválido pelo Ocidente, Buffett disse – numa entrevista concedida à CNBC – que investir em tempos de guerra era uma boa opção, tendo dado quatro conselhos nesse sentido.
E quais eram esses conselhos? Buffet disse que em tempo de guerra não é altura para vender acções, acumular dinheiro ou comprar ouro. É no tempo de guerra que a moeda se deprecia, alertou. E o que se passa agora? “O rublo afundou e o ouro está a disparar. É, pois, o momento de investir nas empresas que acredita que vão ter um melhor desempenho nos próximos 5 a 20 anos”, sublinha o Motley Fool, aplicando as ideias de Buffett.
Hoje, com a nova ofensiva militar da Rússia na Ucrânia, estes conselhos continuam válidos. Para Bufett, o ideal é não vender acções, não acumular dinheiro em espécie, nem comprar ouro quando começa uma guerra – isto porque acredita que investir em empresas é a melhor maneira de criar riqueza ao longo do tempo. Daí que armazenar dinheiro possa ser uma das piores estratégias.
Comprar na queda
O guru do investimento disse, em 2014, o que faria se os títulos perdessem valor: “se as ações estiverem mais baratas, será mais provável que as compre”.
Buffett sublinhou que manteria essa linha de acção, independentemente da gravidade da escalada do conflito. “Ao longo do tempo, iremos investindo o nosso dinheiro em algo. E a única coisa de que podemos ter a certeza é que se entrarmos numa guerra perigosa, o valor do dinheiro baixará”, assegurou.
Não armazenar dinheiro
“O dinheiro perdeu valor em praticamente todas as guerras”, frisou, pelo que “a última coisa que se deve fazer” é ficar com dinheiro guardado durante um conflito bélico. “Poderá querer ser dono de uma quinta, poderá querer ser dono de um apartamento, poderá querer deter acções. (…) Você ficará muito melhor se tiver em mãos activos produtivos nos próximos 50 anos, em vez de pedaços de papel [notas]”, declarou então.
Buffett fala com conhecimento de causa, já que comprou a sua primeira acção durante a Segunda Guerra Mundial.
Aos 10 anos, numa viagem a Nova Iorque, quis conhecer a Bolsa de Nova Iorque. E foi nessa altura que teve o primeiro contacto com o mercado accionista, ao comprar seis títulos da empresa Cities Service, a 38 dólares cada, três para ele e três para a irmã Doris. O valor das acções caiu, mas teve paciência e esperou até que voltassem a subir. Vendeu com lucro, ao valor unitário de 40 dólares, mas depois chegaram a valer 200 dólares. Nunca mais se esqueceu de ter paciência. Muita paciência.
Não comprar ouro
Outro dos conselhos de Buffet para investir em tempos de guerra passa também por não apostar no ouro. Sendo um tradicional valor-refúgio em épocas de incerteza, isso leva a que o metal precioso dispare – pelo que nestas alturas é comprado a preços inflacionados.
O metal amarelo, recorde-se, tem vindo a ganhar terreno desde o início deste mais recente conflito, que começou a 24 de fevereiro.
Investir em acções
Nessa mesma entrevista de 2014, aquando do anterior conflito Rússia-Ucrânia, Buffett lembrou que durante a Segunda Guerra Mundial as bolsas subiram e mostrou-se convicto de que o mercado acionista dos EUA acabaria por continuar a ganhar terreno ao longo do tempo. “As empresas norte-americanas vão valer mais dinheiro”. Mesmo com os dólares a valerem menos, é preferível ter bons investimentos do que deixar o dinheiro parado, defendeu.
E para apostar em acções, não precisa de se preocupar com quais serão as vencedoras. Pode, por exemplo, apostar em fundos de índices, aconselhou. Algumas acções irão valorizar-se e outras perderão terreno, mas os fundos de índices irão sempre reestruturar e investir nos títulos que florescerem. O S&P, por exemplo, reestrutura trimestralmente o seu índice, retirando as acções que não cumprem os requisitos e substituindo-as por outras que cumprem.
Na reunião da Berkshire em 2020, o investidor reiterou a confiança que sempre teve no bom andamento económico dos EUA. “Estava convencido disto na Segunda Guerra Mundial, durante a crise dos mísseis de Cuba, no 11 de setembro e na crise financeira de 2008-09”, apontou.
Com 91 anos, o homem que adora pipocas, que toca guitarra havaiana e que diz que é capaz de comer sandes de presunto durante 50 dias seguidos, é também um dos investidores mais respeitados do mundo. Quando gosta de uma coisa, gosta mesmo e não enjoa. Tal como as sandes de presunto, também se mantém fiel a muitos dos seus investimentos. Sempre com muita paciência.

























































