Lá fora, nos países desenvolvidos, a velocidade de mudança é brutal. As profissões que mais cresceram – e que já se previa que crescessem, mas que foram aceleradas pela pandemia do novo coronavírus – são as ′datificadas‛.
Os gráficos das pessoas que estão a ficar fora do mercado de trabalho indicam que são as que não estão no contexto tecnológico e que exigem exposição física.
João Gomes, partner da Jason Moçambique, não avança números definitivos, mas observa que o mercado evoluiu de tal modo que “nas principais cidades dos Estados Unidos, por exemplo, o metro quadrado de escritórios, que há poucos anos era extremamente caro, já está barato. Isto porque os escritórios foram literalmente abandonados e estão vazios.
Isto significa que o elemento físico do trabalho está a desaparecer”. Esta é uma lógica comum às economias mais desenvolvidas e capazes de prover infra- estrutura tecnológica que permite a transição (digital) para o trabalho do futuro. E em África, como estamos?
A pobreza como trampolim
“Fazer das fraquezas forças”. Eis um lugar comum que encontra, no actual contexto, um lugar bem particular, premissa que fica literalmente subentendida no relatório do Banco Mundial sobre “O Futuro do Trabalho em África”, desenvolvido em meados de 2019 por Mark Dutz, Jieun Choi e Zainab Usman.
Ou seja, não obstante o facto de quase todos os países africanos atravessarem verdadeiros “desertos” que os separam deste novo mundo digital, há condições, e aliás “boas condições”, para os poder ultrapassar. Será?Vejamos: No documento, os especialistas começam por descrever as condições do continente, obviamente desfavoráveis à possibilidade de sonhar com progressos rápidos rumo ao trabalho do futuro. Caracterizam a África Subsaariana por uma diversidade de factores limitativos e, até, impeditivos da adopção das tecnologias digitais:
Níveis baixos de capital humano para uma população jovem e em rápido crescimento; mais de 60% da força de trabalho composta por adultos mal equipados; sector informal particularmente vasto e distinto do de outras regiões em desenvolvimento em termos de dimensão e composição; sistemas de protecção social insuficientes e ineficazes, com oito em cada dez africanos sem cobertura por qualquer rede de segurança social.
Tudo isto, num cenário de disrupção repentina provocado pela pandemia, a que se juntam os choques climáticos, a aceleração da integração económica e as transições demográficas, criará necessidades acrescidas de protecção social.
E o contexto não fica selado sem referir a fraca rede de infra-estrutura de suporte tecnológico, que coloca grande parte do continente entre as zonas do mundo com a internet mais cara e de menor qualidade (ver infografia).

…Todo o mérito?
É questionável que, com todos os travões ao desenvolvimento sobejamente conhecidos, África possa estar em condições de dar passos visíveis no uso dos meios tecnológicos no trabalho, como sugerem os especialistas do Banco Mundial, que acreditam num “futuro do trabalho brilhante”. Como chegar a este (quase) milagre?
Argumentam que, como a África tem um menor sector transformador do que outras regiões, a automação não é susceptível de deslocar muitos trabalhadores durante os próximos anos; a maioria das economias africanas ainda tem baixos níveis de procura de produtos que são comuns noutras partes do mundo, como televisores e frigoríficos. Por isso, a reduções dos preços decorrentes da adopção das tecnologias são mais susceptíveis de ajudar as empresas a crescer, criar mais empregos e produzir produtos mais acessíveis, na medida em que possam ser feitos por africanos.
Por fim, as tecnologias concebidas para satisfazer as necessidades produtivas dos trabalhadores africanos com uma educação limitada têm o potencial para os ajudar a aprender mais e a ganhar mais.
O Banco Mundial também faz menção a um estudo recente que mostrou que, na sequência da chegada da internet mais rápida à África Subsaariana no final dos anos 2000 e início dos anos 2010, o aumento da taxa de emprego foi semelhante para os trabalhadores com apenas o ensino primário e para os que tinham um nível de ensino secundário e superior.
“Esta é uma descoberta optimista”, refere o Banco Mundial.
Optimista é, também, o Fórum Económico Mundial
Outra pesquisa, a do Fórum Económico Mundial, aponta África como potencial beneficiário da 4ª Revolução Industrial. “As cidades mais importantes da África já receberam investimentos tecnológicos substanciais, incluindo maior acesso à banda larga móvel, conexões de fibra óptica nas residências e ampliação do fornecimento de energia eléctrica.
Isso, combinado com a rápida disseminação dos smartphones e tablets de baixo custo, permitiu que milhões de africanos se conectassem pela primeira vez… E, conforme a 4ª Revolução Industrial se desenrola, a África está preparada para desenvolver novos padrões de trabalho”, avança a organização.
Também introduz o conceito de “trabalho flexível” (que se executa virtualmente) como um modelo perfeito para um continente com uma população geograficamente diversa e pronta para trabalhar, uma rede de comunicação móvel sólida e carência de infra-estrutura para sustentar os padrões de trabalho urbano. “Porquê insistir em grandes escritórios centrais e trajectos longos se há uma maneira de aproveitar os talentos do outro lado do continente? Como alternativa, a solução pode ser um quadro de colaboradores distribuído e virtual, com empresas que integram freelancers virtuais”, sugere o Fórum Económico Mundial, sublinhando que “isso já está a acontecer.
Um relatório sobre as tendências de profissões em África, nos últimos cinco anos, mostra que o número de empreendedores aumentou 20%. E o trabalho em plataformas on-line está a aumentar, permitindo que muitos desses empreendedores lancem startups inovadoras que solucionam problemas do mundo real e criam empregos”.
Projecções globais são ambiciosas
O tema sobre trabalho futuro carece de estatísticas actualizadas, mas as disponíveis podem ajudar, de alguma forma, a perceber a dimensão do fenómeno.
O relatório com o título “The Future of Jobs”, publicado em Setembro de 2018 pelo Fórum Económico Mundial, dizia que até 2025 as máquinas desempenharão mais funções do que os seres humanos no mundo do trabalho.
Porém, não há motivo para alarme, já que a mesma revolução tecnológica que colocará os robots em tarefas, que antes pertenciam a pessoas, criará 58 milhões de novos empregos.
Hoje, com a pandemia do novo coronavírus, estes números seguramente carecem de actualização, mas não deixam dúvidas sobre a grande mudança que o mundo está prestes a testemunhar

























































